quinta-feira, 15 de maio de 2014

FUGERE URBEM




A metrópole é um grande erro.
Fumaça, barulho, dinheiro, pressa,
Tanta pressa que escrevo enquanto janto.
Quero ouvir Britten, mas a britadeira não deixa.
Quero ouvir Vivaldi, mas o "chip da VIVO é cinco reais",
Gritam as vendedoras, com a voz mais irritante do mundo
(Deve ser pré-requisito, vai entender).
Amanhã já sei que o engarrafamento me espera.
Olho para cima, buscando conforto em meio ao caos
E me deparo com gigantescos e opressores espelhos
Que refletem todo o nosso vazio.
A alma do homem pós-moderno
É retratada fielmente por essa nula arquitetura.
Calem-se auto-falantes! Calem-se sirenes! 
A cidade é um grande incômodo para mim.
Queria largar tudo e ir pro campo!
Ah, o campo...

Mas espere: eu não gosto do campo!

O campo, com seu verde monótono e eterno
E algumas flores, com as quais eu finjo me importar
Quando escrevo sobre flores.
Em verdade não sei seus nomes, e desconheço seus perfumes.
O campo? O campo fede à bosta de cavalo!
Eu não suportaria viver um minuto lá
Com seus habitantes rudes, sem instrução e com chapéu
(Sim, eles adoram um chapéu).
Nada acontece no campo; o silêncio do ócio
Só é quebrado pelos irritantes grilos, bichos certamente infernais.
E o que dizer dos mosquitos à noite, zunindo Korsakov 
Chupando meu sangue e transmitindo dengue?
E o molho pardo da galinha caipira? Puro sangue!
E o queijo dos amadores fazendeiros? Puro leite!
Eu não tenho a alma de um Horácio Hippie
O campo é um grande incômodo para mim

E se só há cidade e campo
Eu não tenho para onde fugir.




segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

CURSO DE CINEMA ARTÍSTICO - AULA 4 - EXPRESSIONISMO ALEMÃO








Hoje trataremos do Expressionismo alemão no Cinema. Mas antes vamos fazer uma retrospectiva da História da Arte em tempo recorde.

Se para Marx a história é a luta de classes,  a história da arte é marcada por outra luta: A luta entre a bela Ratio greco-romana e o forte Pathos nórdico.  Algo como um eterno retorno, uma alternância entre essas duas formas de expressão caracteriza a história da arte, senão vejamos.

De acordo com o genial historiador da arte Wilhelm Worringer, em seu livro Formproblem der Gotik, o homem primitivo vivia com medo, e não havia compreendido o mutável e misterioso mundo no qual habitava. Então ele cria a Religião, a Linguagem e a Arte, de modo a obter segurança e prazer em meio ao Caos. Na arte, esse escape da vida do homem primitivo, ele expressa sua ânsia por conforto e satisfação por meio da Linha, única abstração que o homem primitivo é capaz de apreender, bem como a única representação do que não é vida. Depois, ele evolui para a representação de formas geométricas.

Já com o Homem Clássico, cujo melhor exemplo é o helênico, há um ajuste entre o Homem e o Mundo Externo, ou seja, o Caos virou Cosmos. Em virtude da inteligência humana, a vida fica mais agradável, tudo faz mais sentido, e o homem vira antropocêntrico. Aqui a arte não mais é escape, mas sim louvor à vida. O divino para o homem clássico não está no ultramundano como acreditava o homem primitivo, mas sim neste mundo. O panteísmo demonstra isso, e a antropomorfia atinge seu clímax, dando origem à religião/mitologia. No mundo clássico ocorre um processo gradual no qual a religião é substituída pela ciência ou filosofia. Há então uma relação suplementar: Onde a ciência falha, a religião entra. A arte clássica é calma, proporcional e equilibrada, e representa diretamente a natureza.

Apolo de Belvedere

         O Gótico dos nórdicos, por sua vez, se caracteriza por ser tenso, transcendental, assimétrico, abstrato e representa a natureza apenas de forma distorcida. Sua base se desenvolve pelo estilo geométrico e de linhas do homem primitivo. As linhas nórdicas primitivas tem um poder imenso e independente, são como labirintos e possuem uma “melodia infinita”. Seus ornamentos primeiramente consistem em pontos e linhas, evoluindo posteriormente para linha curva, espiral, zig-zag e forma de S. Essas linhas excitadas e convulsivas demonstram a grande opressão e inquietude que os nórdicos sentem no seu interior. Essa mesma vontade espiritual por algo elevado e não sensitivo característica dos ornamentos nórdicos vai gerar a sublime catedral gótica, esse transcendentalismo em pedra, ponto mais alto do gótico. O que dá a ideia de transcendentalismo e eternidade na catedral gótica é a sua verticalidade. Gótico e clássico são mundos completamente distintos. Por isso não é de se espantar que uma alma clássica e acostumada ao belo como Giorgio Vasari, o pai da história da arte, tenha desprezado o gótico como sendo feio, bruto e bárbaro. O grande Vasari foi incapaz de compreender o gótico, suas premissas e o que esse estilo exprimia.

Ornamento gótico

         A arte ocidental permanece gótica até o advento do Renascimento. Aqui o Pathos se retira e temos um retorno à Ratio clássica e seus ideais de perfeição, simetria e beleza. Os alemães foram influenciados pelo Renascimento a ponto de haver existido um Renascimento Alemão. Segundo o mesmo Worringer, grandes artistas do Renascimento alemão como Holbein e Dürer se valeram da forma clássica, todavia o conteúdo de sua arte e sua vontade ainda eram góticos. Comparando o Renascimento italiano com o alemão pode-se afirmar que no primeiro, cujo ponto mais alto é Michelangelo, temos a mais forte representação de energias sensoriais; já o Renascimento Alemão é caracterizado pela mais forte representação de energias espirituais.

Davi, de Michelangelo

         Até aqui são ideias de Wilhelm Worringer. Agora continuarei demonstrando, de forma resumida, a continuidade dessa disputa entre Pathos e Ratio


           No final do Renascimento temos o Maneirismo, ou seja, é o Pathos já farto das formas perfeitas e louco para distorcer.


Giambologna, O rapto da Sabina


         Até que vem o Barroco e o Pathos realmente retorna com toda a sua força, caracterizado por uma reação religiosa aos ideais pagãos dos humanistas. O Barroco, tal qual o gótico, tem caráter transcendental e é todo movimento e atividade impaciente.

Rubens, Massacre dos inocentes


         No final do Barroco temos o Rococó, sua versão profana, caracterizado pelo exagero na decoração. Se hoje em dia um rico ignorante ostenta com uma Ferrari, o Rococó era o modo como ricos nobres europeus ostentavam na época. No Rococó ainda há o Pathos presente no Barroco; ele é exagerado e preza pelas formas assimétricas.

Jean-Honoré Fragonard, O balanço

        Mas a Ratio não ia deixar barato e retorna com o Neoclassicismo, contra os excessos decorativos do Rococó. O Rococó é acusado de ser superficial e preocupado somente com decoração. Seu opositor, o Neoclassicismo, é moderado, equilibrado, ou seja, a história se repete.

Antonio Canova, Teseu e o Minotauro

       Cansado deste mundo certinho e perfeito o Pathos retorna sob a forma do Romantismo. Agora reina a imoderação, a força e a idealização da realidade.

Caspar David Friedrich, O viajante sob o mar de névoa

       Mas aí a Ratio se pergunta: “Não estamos com o Romantismo nos afastando da realidade e de seus problemas?”. Então surge o Realismo, contra a idealização romântica da realidade.

Gustave Courbet, Os quebradores de pedras

      Até que o Modernismo grita: “Basta dessa briga! Basta de tudo! A tradição está ultrapassada, vamos superá-la!”. Então ele busca novos caminhos, novas formas de se expressar em todas as artes, e entre um monte de “ismos”, ufa, temos o Expressionismo. Como será visto a seguir, o Expressionismo é todo Pathos, o que leva a crer que esse “novo caminho” não é tão novo assim.




Ernst Ludwig Kirchner, Auto-retrato como soldado

      Hoje vivemos no maldito Pós-Modernismo, sem Ratio, sem Pathos, essa verdadeira bagunça na qual vale tudo, todos falam nada e não há um caminho definido. Mas vamos falar do Expressionismo, porque ali o ser humano ainda criava uma arte viva.

      Diferente do Impressionismo, que era mais objetivo, o Expressionismo é totalmente subjetivo, sua ideia consiste em demonstrar atmosferas emocionais. A pintura é a primeira arte expressionista. No ano de 1905, nomes como Ernst Ludwig Kirchner, Emil Nolde e Max Pechstein criaram em Dresden o grupo Die Brücke (A ponte) dissolvido futuramente devido a inúmeras desavenças entre os membros.. Já Franz Marc, Kandinsky e Paul Klee criaram em Munique o grupo Der Blauer Reiter (O Cavaleiro Azul) em 1908. Mas o maior nome do Expressionismo é membro do Expressionismo Nórdico, o grande Edvard Munch. Quando se analisa os cenários dos filmes expressionistas têm-se a impressão de estar dentro daquele ambiente do quadro O Grito, de Munch (é interessante mencionar que os cenários dos filmes expressionistas eram pintados por artistas de verdade, mas muita calma, ainda não chegamos no Cinema).

O grito, Edvard Munch

         Nesse famoso quadro vemos a ausência de realidade, distorção, demonstração patente de uma atmosfera emocional, ausência de belo, Pathos, assimetria, inquietude, ou seja, é o expressionismo por excelência que, notem, possui as mesmas características do gótico. O grito é sem dúvida um dos quadros mais geniais já feitos. Percebam que o personagem que grita ficou desesperado desse jeito após cruzar na ponte com os dois homens da alta sociedade, ou seja, após conhecer a vazia vida burguesa, e aí o contraste é sensacional: Os dois homens estão completamente adaptados a essa sociedade de aparências, e estão representados pelo amarelo do céu, essa cor cheia de vida; Munch, digo, o homem que grita, por sua vez, demonstra um desespero que emociona os que contemplam o quadro. Parece que o mesmo está derretendo ante tamanho sofrimento, e é representado pelo gelado azul do rio. Seu rosto é cadavérico e seu corpo está completamente distorcido, contrastando com os corpos mais realistas dos dois homens. Mais nórdico impossível...

           Além da Pintura, o Expressionismo floresceu na Poesia, com o Neopathetisches Cabaret, que visava justamente expressar atmosferas emocionais a partir de imagens literárias; na Música, com a arte atonal de Schoenberg e seu dodecafonismo; no Teatro, com Max Reinhardt, que focava no mundo interno do personagem (em geral só havia o personagem principal nas peças) e até na Dança, com Rudolf von Laban e suas coreografias espontâneas e emocionais. Analisadas as indispensáveis bases, hora de nos determos no Cinema Expressionista.

      Se analisarmos o Cinema não pela técnica, mas pela expressão da vontade, o Expressionismo certamente figura no auge da sétima arte, porquanto sua vontade é viva e poderosa. O cinema alemão personifica o espírito da República de Weimar, ou seja, da Alemanha pós-império, pós-primeira guerra mundial. Seu cinema anterior, também chamado de “cinema Guilhermino” em alusão ao Kaiser alemão Wilhelm II (tão antissemita quanto Hitler) que abdicou em 1918 e se exilou, é um cinema bem fraco em comparação com o cinema expressionista de Weimar. Críticos mais ferozes consideraram os filmes dessa época como um monte de sucata. Após a derrota da Alemanha na primeira guerra mundial, se inicia a República de Weimar, um governo fraco numa nação acostumada com imperadores e ausência de democracia, e numa época de grave crise, fome, e pós-tratado de Versalhes, que humilhou os alemães com uma série de imposições como perdas territoriais, altíssimas indenizações e impossibilidade de se equipar decentemente suas forças armadas. Ou seja, é preciso afirmar que aquela época não pedia um governo fraco (também não pedia um bando de assassinos no poder, pois nenhuma época pede isso, que fique bem claro). Não é à toa que Weimar foi um fracasso.

          Os diretores dos filmes expressionistas agiam como verdadeiros profetas antevendo o surgimento de ditadores com poderes absolutos, que controlam as massas e pisam nas liberdades e direitos humanos. Essa temática era frequente e certamente não se tratou de uma coincidência. A norte-americana Barbara Deming afirma: “Persistentes reiterações dos temas de filmes demonstram uma projeção exterior de impulsos internos”. 

         O filme que inaugurou essa temática é O gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, um dos filmes mais importantes da história do Cinema. Um crítico definiu o filme como sendo a “primeira tentativa significante de expressão de uma mente criativa no cinema”, enquanto que outros consideraram Caligari a primeira obra de arte das telas do Cinema (o que eu discordo, porquanto muitos filmes verdadeiramente artísticos foram feitos antes dele, que a meu ver é apenas um divisor de águas imenso na história do Cinema).



          Sucintamente e sem dar muito spoiler, a história do filme é a seguinte: O Dr. Caligari apresenta um show com seu parceiro hipnotizado Cesare, um homem capaz de prever o futuro. Porém, uma série de assassinatos ocorre na cidade e a dupla passa a ser suspeita pelo cometimento dos crimes. Os autores do roteiro Hans Janowitz e Carl Mayer, dois pacifistas, quiseram criticar a guerra e a autoridade com Caligari. O Doutor tem uma autoridade ilimitada, idolatra o poder como tal, e para satisfazer seu desejo de ambição ele viola todos os direitos humanos e valores. Cesare, o hipnotizado é apenas um instrumento nas mãos de Caligari. Lembra muito alguém numa época não tão distante, não é verdade?


         O autor escolhido inicialmente foi Fritz Lang, mas, ocupado em outro filme, o mesmo não pôde assumir o compromisso.  Então Robert Wiene é escolhido. Wiene faz algumas críticas ao roteiro, a dupla de roteiristas protesta, porém o filme é modificado. Segundo Siegfried Kracauer no excelente livro “De Caligari a Hitler”, “Enquanto a história original deveria expor a loucura inerente à autoridade, o Caligari de Wiene glorifica a autoridade e condena seus antagonistas à loucura. Com isso Wiene agrada o gosto das massas menos educadas”. Poderíamos acrescentar que com essa modificação ele retrata os anseios do povo alemão.

         A intenção de Kracauer é, pelo Cinema, entender a ascensão de Hitler. Hitler disse que quem não entende Wagner não entenderá o nazismo. Eu acrescento: Quem não entender o Cinema Expressionista não entenderá como o povo alemão foi capaz de apoiar o nazismo. Para Kracauer os filmes do pós-guerra expuseram a alma alemã. Uma de suas teses é que a técnica, o conteúdo das histórias e a evolução dos filmes de uma nação somente podem ser compreendidos completamente quando relacionados com o padrão psicológico real dessa nação.  No entender dele, os filmes de uma nação refletem a sua mentalidade de modo mais direto que as demais artes por duas razões:

1 – Um filme nunca é produto de apenas um indivíduo;

            2 – Os filmes se dirigem às massas anônimas. 

        Uma temática recorrente não só no Cinema alemão como na arte alemã é a busca pelo poder mediante a perda da própria alma, cujo principal exemplo é o Fausto. O que ocorreu na Alemanha nazista foi exatamente o pacto com o diabo do Fausto, O estudante de Praga, As mãos de Orlac, Peter Schlemihl e tantos outros: A busca pelo poder; o preço: a própria alma do povo alemão. E que poder almejado foi esse? Vingança da derrota humilhante na primeira guerra (lembrando que a Alemanha é um país que tem tradição militar, principalmente em se tratando da antiga Prússia), conquistas que fizeram ela voltar a ser uma potência, empregos, expulsão de povos indesejados, criação de um povo com homens superiores, etc. Ou seja, a ascensão do nazismo é como o cumprimento de uma profecia contida na Literatura e Cinema alemães. É por essas e outras que a história da Alemanha é uma das mais incríveis, sendo quase inverossímil. Um gênio já disse que a realidade é o que há de mais inverossímil. 

       Sendo bem claro, defendo o seguinte ponto: A temática dos filmes expressionistas alemães da década de 20 demonstra que o povo alemão estava disposto a pagar qualquer preço, inclusive abrir mão de sua liberdade, para que um ditador tomasse o poder e salvasse a Alemanha.

      Quanto às características dessa arte que expôs os anseios da alma alemã, é possível remeter suas origens à antiga arte gótica anteriormente citada. Segundo Worringer, o gótico transforma tudo em misterioso e fantástico. Atrás das aparências óbvias, ele vê sua caricatura disforme, atrás da vivacidade das coisas, ele vê mágica e mistério. A realidade é distorcida, tudo que é real se torna grotesco. Todas essas características estão presentes no cinema expressionista. Para se obter a mencionada distorção, os diretores usaram além dos cenários, maquiagem, escuridão, jogo de sombras e caras e bocas que lembram “O grito”. Os diretores de Weimar eram verdadeiros mestres da iluminação, bem como foram os primeiros a tornarem a câmera completamente móvel. 

                          Será que os alemães viram a realidade distorcida por esse homem chamado Caligari, digo, Hitler?
           Freud, citando Le Bon, defende que o líder de uma massa exerce uma espécie de hipnose na mesma. As armas que Hitler usou para “hipnotizar” o povo alemão foram as mais diversas: Retórica, manipulação da cor, uso de símbolos, propaganda, terror, mentiras, tudo isso em tempos de crise, com desemprego e fome. Kracauer afirma que a pequena burguesia e os trabalhadores alemães deram ouvidos às promessas nazistas guiados pela emoção e não pela realidade dos fatos. O problema de se trabalhar com a tese da hipnose do povo alemão pelo líder Hitler está em se concluir que se houve hipnose, não houve vontade livre, logo, não houve culpa dos alemães. Em verdade entendo que houve não uma exclusão da culpa, mas sim uma atenuante da culpa do povo alemão que merece ser levada em consideração. Enfim, é sempre difícil julgar uma época sem ter vivido nela.

       O Romantismo também está presente no cinema de Weimar. É como se o Romantismo tivesse esperado pacientemente o surgimento do Cinema para poder se expressar nele. Romantismo e Expressionismo se misturam nesse clássico cinema alemão de Weimar, e isso fica claro na trilha sonora: Às vezes a música do cinema expressionista é modernista, percorre caminhos obscuros; outras vezes é romântica, wagneriana. Temas clássicos como o Fausto e O anel dos nibelungos estão presentes. 

          Agora vamos assistir aos filmes expressionistas, começando pelo mais importante, O gabinete do Dr. Caligari: 





Outro filme expressionista importante é M., o vampiro de Düsseldorf, do grande Fritz Lang. Trata-se de um assassino de crianças que é procurado por outros criminosos, porquanto esses entendem que o assassino feriu a "ética" do crime. Aqui a profecia está em retratar bandidos no poder. A cena do julgamento pelos bandidos é marcante, e nos remete aos nazistas no poder, que subverteram o Direito e a lei em prol de seus propósitos criminosos. Cumpre mencionar que o filme é de 1931, sendo que Hitler vira Chanceler da Alemanha em 1933 e neste mesmo ano proíbe o filme de Lang. Assistam: 




         O filme Metropolis, de Fritz Lang, também é considerado um filme expressionista, apesar de ser claramente ficção científica. O roteiro foi feito pela esposa de Lang, Thea von Harbou, grande parceira artística do diretor e autora de inúmeros roteiros. O filme apresenta uma cidade moderna, com alta tecnologia e duas classes sociais distintas: trabalhadores e a classe alta liderada pelo empresário. O final conciliador me levou às lágrimas, mas provavelmente não agradará os marxistas de plantão, que querem luta constante e jamais uma conciliação entre as classes. 




          Um filme importantíssimo do período é Dr. Mabuse, o jogador, do mesmo Fritz Lang. O protagonista joga com as emoções das pessoas, e vemos outra vez temas como hipnose e controle da mente. Uma frase marcante do Dr. Mabuse é: "Não há felicidade, há apenas vontade de poder". Numa cena que me fez lembrar os julgamentos de Nuremberg, um personagem diz: "Eu trapaceei, sim! Mas eu não queria trapacear! Algo mais forte que eu me forçou a fazer isso". Já sabem onde quero chegar. O final do Mabuse é como uma profecia dos últimos momentos sofridos por Hitler no Bunker. O Cinema Expressionista alemão é uma grande profecia do advento e fim do Nazismo. Assistam: 

http://www.youtube.com/watch?v=IqglLUaOUvc

http://www.youtube.com/watch?v=GDMJVdWtU8c

Outro filme a ser citado de Fritz Lang é Os nibelungos, baseado na mitologia nórdica. Não é o típico filme expressionista, mas merece e muito ser tratado aqui. A trilha sonora é uma verdadeira obra-prima, a morte de Siegfried é emocionante e a vingança de Kriemhild é terrível. O filme inteiro é composto de duas partes: Siegfried e A vingança de Kriemhild. Um dos melhores filmes que eu já vi.



        Fritz Lang é um gênio, assista todos os filmes dele. Citei os mais importantes na minha opinião, mas não posso falar de todos porque a aula já está imensa. Por último falarei de A morte cansada (Destiny), esse sim tipicamente expressionista porque constantemente descreve situações emocionais. O filme trata do conflito entre amor e morte, dois temas bastante germânicos. E então, quem vencerá esse conflito? 

http://www.youtube.com/watch?v=mDO3r192kwo


Um dos diretores mais importantes do expressionismo é F. W. Murnau. Seu filme mais famoso é Nosferatu, que conta a história do vampiro drácula. Não é dos meus filmes alemães preferidos, e pra ser sincero gostei muito mais do drácula do Herzog e do Coppola. Mas é um filme importante, que tem como protagonista um ser poderoso, misterioso e demoníaco. Para a autora Eisner o "demoníaco" e as forças obscuras que povoaram o Romantismo renasceram na década de vinte como consequência das inúmeras mortes de alemães nos campos de batalha. Por todo o exposto, Nosferatu certamente é um autêntico representante do cinema expressionista e um dos primeiros filmes de terror. Deve ter assustado muita gente... na época.




Fausto de Murnau, esse sim eu degustei do começo ao fim. Releitura excelente do mito do Dr Fausto, cuja versão mais famosa é a de Goethe. O Dr. Fausto vivia para a ciência e nunca tinha amado.  Por causa disso, bem como porque contempla a morte pela peste a todo instante, o velho Fausto tem uma visão pessimista da vida. Então ele faz um pacto com o diabo, que confere a ele a juventude. Assim ele se apaixona, porém perde sua alma. O filme é de 1926; já o pacto que o povo alemão firma com Hitler é de 1933.



         Outro excelente filme de Murnau é A última risada. O protagonista perde seu emprego em um hotel por ser considerado muito velho, fica na pior, porém o final é surpreendente, talvez imposto pelo estúdio. O filme praticamente não tem letreiros. Assistam, é muito bom: 





         O filme O Golem, de Paul Wegener é sensacional. Os judeus de Praga estavam sendo perseguidos. Por isso um rabino judeu cria o Golem, um monstro que defende os judeus. Porém, o golem começa a praticar uma série de assassinatos. A temática de antissemitismo confere ainda mais importância ao filme. Essa é a versão mais famosa, de 1920: 




O Gabinete das figuras de cera é um filme de 1924 do diretor Paul Leni. Filme divertido e totalmente expressionista, principalmente quando conta as histórias das três estátuas de cera de Harun al-Rashid, Ivan, o Terrível e Jack, o Estripador. 





         As mãos de Orlac é um filme criativo de Robert Wiene, o criador do Caligari. Orlac é um pianista que perde as mãos num acidente. Os médicos decidem colocar em Orlac as mãos de um assassino recém executado. Orlac, porém, passa a virar uma pessoa maldosa com as mãos do assassino. 




Por fim, cito Nathan, o sábio. Apesar de não ser possível classificar esse filme como 100% expressionista (estaria mais para um épico), Nathan, o Sábio, de 1922, merece ser mencionado. Trata-se de uma adaptação da peça homônima de Lessing sobre tolerância religiosa em plena terceira cruzada. A crítica da extrema direita quando do lançamento do filme obviamente foi negativa e Hitler proibiu o mesmo uma década depois (para Hitler, que considerava os judeus inferiores, as palavras “sábio” e “judeu” simplesmente não combinavam). A história dos anéis contada por Nathan é bem interessante, ali ele mostra sua sabedoria, porém Saladino não fica para trás e demonstra no decorrer do filme ser tão sábio quanto. O diretor certamente achou que a época pedia um filme sobre tolerância religiosa. Nossa geração também não pode esquecer os sábios ensinamentos desse filme, pois atualmente ainda presenciamos inúmeros casos de intolerância religiosa. Portanto, assistam essa obra-prima do Cinema de Weimar:

http://www.youtube.com/watch?v=of6sF3Ul3pE

O expressionismo dura aproximadamente uma década e termina porque se esgota. A profecia havia sido feita, agora era só esperar o advento do sombrio tirano, o último personagem expressionista. Até a próxima aula. 

domingo, 17 de novembro de 2013

CURSO DE CINEMA ARTÍSTICO - AULA 3 - DO CINE DE ESPETÁCULO AO DE TRANSIÇÃO

Auguste e Louis Lumière, os fake pais do Cinema


Na última aula aprendemos que os irmãos Lumière não criaram o Cinema, como muitos pensam. A dupla francesa tampouco fez a primeira apresentação de Cinema pública e paga. Um mês antes da famosa demonstração do Cinematógrafo em Paris, uma outra dupla de irmãos, os alemães Emil e Max Skladanowsky fizeram em Berlim a primeira apresentação pública e paga de Cinema no mundo com seu Bioscópio. 



Os pioneiros do cinema alemão Emil e Max Skladanowsky

       
Bioscópio

Esse filme é um dos mais famosos dos Skladanowsky:





Resta então a seguinte pergunta: Por que os Lumière são tão famosos? Porque eles eram reis do marketing e porque seu cinematógrafo era superior aos concorrentes, já que não utilizava eletricidade e podia ser câmera ou projetor e ainda fazer cópias a partir dos negativos. Cumpre mencionar que muitos afirmam que o verdadeiro criador do cinematógrafo foi o francês Léon Bouly (já aprendemos na aula sobre Edison que uma coisa é a criação, outra o registro de patente). Os Lumière e o seu (?) cinematógrafo fizeram grande sucesso nos EUA apresentando seus filmes nos Vaudevilles, abordados na última aula. 

Cinematógrafo. Lumière ou Bouly?

Um fato pouco mencionado é a adesão de Louis Lumière ao fascismo. Louis enviou uma carta ao Duce italiano Mussolini louvando este e seu regime. Mas já basta de queimar os Lumière, coitados. Vamos assistir uma coletânea de alguns de seus filmes:

 



Os irmãos Lumière estavam preocupados basicamente em retratar o movimento, algo almejado principalmente pelos fotógrafos, como vimos na aula passada. Esses primeiros filmes são uma grande homenagem à vida, pois na definição de Aristóteles, vida é movimento. 

Os principais polos do Cinema primeiro são os EUA e a França. Nos EUA, há uma verdadeira guerra entre a Edison, Vitagraph e Biograph; Na França os Lumière disputavam com a Star Film, do mágico George Meliès e a Companhia Pathé, de Charles Pathé. Porém, desacreditados em relação ao Cinema, os irmãos Lumière vendem suas patentes à Pathé em 1902, tendo uma curta participação na história do Cinema. Segundo os irmãos franceses, “O cinema é uma invenção sem futuro”. Erraram feio. Hora de tratarmos do grande George Meliès, principal nome do chamado “Cinema de espetáculo”.

George Meliès, mágico em todos os sentidos

George Meliès foi um ilusionista francês que entrou no mundo do Cinema e revolucionou o mesmo. Meliès, enquanto mágico, usou o Cinema como mais um recurso para maravilhar as pessoas. Pode-se dizer que Meliès é o pai dos efeitos especiais, pois muitos recursos foram criados por ele para espantar os expectadores. Daí extraio minha “tese do retorno”, pois o Cinema começa com o objetivo de meramente entreter as pessoas com efeitos especiais, sem focar em histórias elaboradas, depois ele vira uma Arte de verdade, e por fim retorna às origens como está o Cinema blockbuster atual, que foca nos efeitos especiais para entreter as pessoas, sem se valer de enredos profundos e complexos.

Esse é o filme mais famoso de Meliès, Viagem à lua (1902), considerado o primeiro filme de Ficção científica da história. Quem nunca viu a famosa cena da nave espacial chegando à lua? 



Dentre os truques usados por Meliès em seus filmes, podem-se citar as "paradas para substituição", usadas para desaparecimentos e substituições de objetos. No filme abaixo, A mansão do diabo (1896), o uso dessa técnica é frequente: 



Antes de tratarmos do cinema de transição cumpre mencionarmos a influência dos ingleses da Escola de Brighton. Seus integrantes eram Alfred Collins, George Albert Smith e o principal deles, James Williamson, o pioneiro do cinema inglês. A Escola de Brighton rompe com o estilo de câmera fixa dos Lumières e Meliès, e filmam com a câmera em movimento, trazendo novas possibilidades estéticas. Nesse famoso filme de James Williamson, vemos o uso dessa técnica num close altamente criativo: 



O uso da câmera em movimento também pode ser visto nesse filme de George Albert Smith: 



A passagem do cinema de Atrações para o cinema de Transição ocorre aos poucos, não há um corte repentino. As narrativas vão aos poucos se tornando mais elaboradas e a atividade do Cinema se organiza em moldes industriais. A partir de 1905 começam a surgir os Nickelodeons, grandes armazéns abafados nos quais se exibiam filmes. Os ingressos custavam 1 níquel, ou seja, five cents, daí o nome (lembrando que Odeon era uma espécie de teatro grego coberto no qual se apresentavam músicos e poetas). Esses Odeons a 1 níquel se espalharam pelos EUA, deixando para trás a era dos Vaudevilles e marcando o início do cinema verdadeiramente industrial. Pelo preço barato, pode-se inferir que os expectadores eram em sua maioria pobres (por isso os Nickelodeons eram apelidados de teatros de operários). 



Odeon de Éfeso, Turquia


Nickelodeon


No cinema de transição já se percebe menos ação física e mais definição psicológica nos personagens. Além disso, filmes com mais de uma hora eram raramente exibidos em Nickelodeons. Os Nickelodeons vão declinando conforme o Cinema vai evoluindo. O público do Cinema cresce consideravelmente e os filmes vão ficando maiores, principalmente com o lançamento do filme "O nascimento de uma nação", de David W. Griffith, que estabelece os filmes longa como regra. Mas antes de falar da importância e polêmica envolvendo Griffith, destaco alguns filmes importantes desse período, porquanto nossa próxima aula já será sobre as vanguardas do século 20, começando pelo maravilhoso Expressionismo Alemão.

O filme russo Stenka Razin (1908) foi o primeiro filme dramático russo. Seu diretor Alexander Drankov foi um dos pioneiros do cinema russo. Não é dos filmes mais legais, porém vale pela música pelo menos: 








Os filmes de Max Linder também merecem ser abordados. Max Linder foi um comediante francês  muito talentoso que influenciou Charles Chaplin, entre outros. Com seu personagem malandro e namorador, ele fez muitas comédias, mas morreu na tragédia: se matou no auge da fama. Mas não fique triste, leitor, assista esses filmes dele: 







O filme Cabiria (1914) é simplesmente uma obra-prima. A Itália produziu outros bons épicos antes desse, mas Cabiria certamente é um divisor de águas. O filme conta a história da menina Cabiria sequestrada para ser morta em sacrifício ao Deus Baal na Segunda Guerra Púnica entre Roma e Cartago. O filme é grandioso, com muitos atores e cenários e figurinos impecáveis. A cena do templo de Baal onde ocorrem os sacrifícios das crianças é maravilhosa. O filme também trata do Cerco de Siracusa, que ocorreu durante a Segunda Guerra Púnica. Arquimedes, o grande matemático grego era de Siracusa e participou ativamente da defesa de sua cidade utilizando diversos utensílios por ele criados. O invento mais famoso foram espelhos que refletiram o calor do sol e fizeram queimar os barcos de madeira dos invasores romanos (a veracidade desse fato é contestada por muitos). A cena de Arquimedes atacando os navios é muito boa. Por fim, menciono a famosa cena da pirâmide humana, muito criativa. Assista fazendo um intervalo, o filme é grande. Mas assista, porque é realmente muito bom: 


Agora podemos tratar do diretor mais importante do período de transição, o americano David W. Griffith. 

D. W. Griffith


David Griffith trabalhou na Biograph, e entre 1908 e 1913 produziu mais de 400 curtas. Pode-se citar entre as características de sua filmagem o fato de sempre encenar a ação na frente da câmera e o uso das "Montagens Pararelas", para explorar contrastes entre ricos e pobres, bons e maus, etc. Influenciado pelo filme épico Cabiria, Griffith resolve investir nos longas e cria em 1915 "O nascimento de uma nação", talvez o filme mais importante da história do cinema, se eu tivesse que escolher um. 

A KKK do Tarantino no Django não é tão gloriosa assim


Nesse filme, o mais longo filme americano da época e considerado o precursor do cinema clássico, Griffith conta a história dos EUA desde a guerra civil americana, passando pela excelente cena do assassinato de Lincoln no teatro Ford até chegar num ponto extremamente polêmico: Griffith nos diz que os negros, após a abolição da escravatura alcançaram o poder, mas são retratados como uns bichos no parlamento, com os pés descalços no meio das reuniões. Então ele diz que para salvar o país daquela bagunça, daquela verdadeira anarquia negra, foi criada a gloriosa Ku Klux Klan. O filme causa repulsa nos dias de hoje, e na época também causou em algumas pessoas. Contudo, a diferença é que o racismo na época era uma opção política. Não que tenha sido uma escolha louvável. Tentar compreender não é perdoar, já dizia Hannah Arendt. Os cavaleiros da KKK surgem imponentes, e a mensagem que o filme passa é que a nação americana só nasce mesmo com a criação da KKK. Assista: 



No ano seguinte, para rebater as críticas que recebeu em relação ao conteúdo racista do filme O nascimento de uma nação, Griffith lança o filme "Intolerância", como se o problema fosse não de Griffith, mas sim dos intolerantes críticos. O filme, mais um exemplo de montagem paralela, trata de quatro histórias simultaneamente, uma na Babilônia, uma na Judéia (retratando a morte de Cristo), uma na França (massacre de São Bartolomeu) e uma moderna nos EUA. Assista e até a próxima aula!