segunda-feira, 14 de maio de 2012

ODE AO CRAVO


ODE AO CRAVO




DOS CRAVOS E ESPINHOS MUITO JÁ SE FALOU
DOS CRAVOS DAS ESPINHAS É A PRIMEIRA VEZ
POIS POUCOS SÃO OS QUE RECONHECEM TEU VALOR
SIM, AO TODO ELES NÃO DEVEM PASSAR DE UNS TRÊS

OH, TU, NOBRE REI DAS PROFUNDEZAS DA DERME
ÉS DILETO COMPANHEIRO DESTE POETA
QUANDO O PERITO ARQUEIRO TÉDIO LANÇA A SETA
SÓ TU DIVERTES A MINHA VIDA DE VERME

ASSIM COMO A BEBIDA DO LATINO BACO
QUANTO MAIS VELHO MELHOR AINDA TU FICAS
MOSTRA-TE A TODOS DOURADO COMO PEPITAS
QUANDO DEIXAS O TEU SUBCUTÂNEO BURACO

NADA É PASSÍVEL DE ME DEIXAR MAIS CONTENTE
DO QUE CONTEMPLAR TEU MISTÉRIO, BELA ACNE
PORQUANTO EM QUE PESE TU ENTRARES COMO ARACNE
SAIS DA PELE COMO UM BASILISCO IMPONENTE

TU, CRAVO, ÉS PROFUNDO, TEU POEMA NEM TANTO





PERCEBA EM QUE SITUAÇÃO SE ENCONTRA O ARTISTA DO SÉCULO XXI  
OS GRANDES TEMAS ESTÃO ESGOTADOS, NÃO SOBROU NENHUM
“AMOR”, “MORTE” E “DEUS”, DURANTE ALGUNS MILÊNIOS
FORAM DESTRINCHADOS PELOS GRANDES GÊNIOS
PORTANTO, AO POETA INCANSÁVEL E BRAVO
SÓ RESTA ESCREVER SOBRE O CRAVO

terça-feira, 10 de abril de 2012

A PEÇA DO ESTAGIÁRIO






      A PEÇA DO ESTAGIÁRIO 



PERSONAGENS


Carlos, o pobre estagiário.
Mãe de Carlos
Tibúrcia, namorada de Carlos.
Vovó caridosa
Velha chata do metrô
Faxineira do escritório
Bob Marley, mendigo da rua de Carlos
Dagoberto, amigo de infância de Carlos
Dr. Von Mitus, o dono do escritório
Jéferson, estagiário amigo de Carloss
P. Dante, funcionário do protocolo
Moleque da xerox
Figurante principal do metrô no final
Adolfo, o chefe de Carlos
Asco, o mais novo estagiário do escritório
Entregador de papel de rua
Delzilene, serventuária
Contra-regra da peça
Figurantes do metrô (todos)


ATO I


CENA I



Ao som de “Peer Gynt – Amanhecer, de Grieg”, CARLOS acorda para mais um dia. Seu quarto está completamente bagunçado. Ele ainda luta contra o sono quando/

ENTRA sua MÃE. Ela pensa que Carlos está dormindo e parte para acordá-lo. 

Mãe, gritando - Vamos, acorda logo! (A música é cortada de repente). Já são seis horas.

Carlos, tentando esconder irritação – Eu sei, obrigado. 

Carlos se senta na cama, morto de sono. 

Carlos (pensamento) – Megera! Bruxa! Com uma mãe dessas não dá. Pior que despertador. Pelo amor de Deus. 

Mãe parte para a arrumação do quarto de maneira expansiva, ruidosa, violenta. Sádica, começa pela cama. Expulso, Carlos se levanta. Olha-se no espelho e começa a se arrumar. Uma a uma, veste as peças do terno. 

Carlos (pensamento) – Mais um dia de luta nesse escritório. Se eu estivesse aprendendo alguma coisa, tudo bem. Mas só faço trabalho braçal. Que tempo perdido! 

Na hora de dar o nó na gravata, Carlos estaca. Mira-se no espelho. Seu semblante muda. 

Carlos (pensamento) – Ah, só posso estar brincando. Claro que não é tempo perdido. Nessa vida, a gente sempre acaba aprendendo algo com qualquer experiência, seja ela ótima, boa, regular, ruim ou um estágio. Não tenho dúvidas de que para alguma coisa esse maldito estágio vai me servir.

Mãe – Enquanto você se arruma, vamos conversar: olha, não vou mais pagar esses cursinhos inúteis que você faz. Curso de teatro, aula de russo... Se você quer rasgar dinheiro, rasga o seu. Você agora ganha salário. 

Carlos – Bolsa-auxílio.

Mãe – É a mesma coisa. 


Carlos – Se fosse a mesma coisa não tinham inventado outro nome. Bolsa- auxílio é o nome bonito que dão para os salários miseráveis.

Mãe – Bom, que fosse soldo, remuneração, esmola, din-din, faz me rir. O recado tá dado. A fonte secou. 

Carlos, esquivo, com pressa – Depois a gente vê isso, preciso sair agora. Vou chegar mais cedo no escritório. Tenho que resolver uns pepinos. 

Mãe – Mais cedo de novo? Além de te fazer matar todas as aulas, esse escritório tá te ensinando alguma coisa? 

Carlos – Com certeza. Ninguém entrega papel tão bem quanto eu. 

Mãe – Metido! Cuidado que você ainda pode se dar mal nessas entregas. Nada é tão ruim que não possa ficar pior. 

Carlos – Ih, sai dessa. Sem macumba pro meu lado. Nem parece que é minha mãe... Tchau, beijo.


CENA II 


No caminho do metrô, Carlos cruza com um entregador de papel e com Bob Marley, o mendigo da rua. O entregador trabalha em alta velocidade, eficiente, cheio de trejeitos e cacoetes profissionais. 

Carlos (pensamento) – Ai, que engraçado, olha esse entregador de papel! Eu faço exatamente a mesma coisa que ele e também ganho pouco. Ta certo que ele entrega até melhor que eu. Mas eu entrego de terno!

Carlos se perde em devaneios. Mira o entregador de papel como se não o visse, com o olhar fixo. 

Carlos (pensamento) – Como o terno dá poder a quem o veste! É uma das coisas que compensam esse estágio. Ah, quando me chamam de doutor... Que melodia para meus ouvidos! 

Após algum tempo, o entregador se incomoda. Pára de entregar papéis, desconfiado e balbucia resmungos entre os quais só identificamos algo como “viado”, “ta me achando bonito?”, “vai procurar tua turma”, “engomadinho escroto”, “bichinha”. 

ENTRA BOB MARLEY, o mendigo da rua. 

Imediatamente, Carlos volta a realidade. Olha para Bob.



Carlos (pensamento) – Nossa, que cheiro horrível para minhas narinas! Tinha que ser o Bob. Esse doidão não desiste. Todo santo dia me pede a esmola que eu nunca dou. Ele nem sabe quem eu sou, vê se pode... pra ele eu sou alguém sem individualidade, um doador de esmolas em potencial como qualquer transeunte. Mas eu sei exatamente quem ele é: Ele é o Bob Marley, o mendigo da minha rua. De alguma forma, ele tem mais a minha atenção do que eu a dele. E ele nem sabe o que quer dizer transeunte...

Bob Marley – “Dotô”, “intéra” um real? 

Carlos – Hoje tá brabo! 

Bob Marley olha pro lado e segue seu caminho.

Carlos (pensamento) – Mal sabe ele que, no meu caso, tá brabo mesmo. Agora, eu também desconfio dele com esse “intéra”. Todo mendigo tá sempre juntando grana pra comprar algo misterioso. Como se só faltassem esses centavos pro cara realizar o sonho da casa própria. 

Carlos se afasta, as mãos protegendo disfarçadamente as narinas. De repente, estaca. A meia distância, volta a observar Bob.

Carlos (pensamento) – Se bem que um amigo meu fez as contas e disse que o Bob ganha de esmola mais do que eu recebo no escritório. Olha lá, aquela coroa deu cinco pratas pra ele! É fato. Ganha mais que eu. Maconheiro vagabundo. 

Carlos retoma seu caminho.

Carlos (pensamento) – Pensando bem é justo ele ganhar mais do que eu. O ganho de uma pessoa deve ser proporcional ao que ela faz pra sociedade. O que eu faço? Serviços simples pra meia dúzia de clientes do meu chefe. O que o Bob faz? Ele é o meio usado pelas velhinhas caridosas para irem pro céu. Muito mais importante.

Carlos ouve o diálogo entre a senhora e o mendigo:

Coroa – Olha, nada de comprar drogas com esse dinheiro, hein!

Bob Marley – Sim, claro, “pó” deixar, tia.

Carlos (pensamento) – Fala sério! Além de não entender nada de reggae, a coroa não ta vendo que o cara é um ferrado? Não tem casa, não tem família, não tem nem uma viola, um tambor pra batucar... e ainda por cima não pode usar drogas? Se ela quisesse mesmo o bem do Bob, ela diria: “Toma aqui, meu filho, 5 reais pra você comer e mais 5 reais pra você queimar um fuminho, porque eu sei que aguentar essa miséria careta não deve ser fácil”. Ei, coroa, nem só de pão vive o homem!


CENA III


Num vagão do metrô, uma VOVÓ se aproxima de Carlos visando seu assento.

Carlos (pensamento) – Ah não, vovó, nem vem. Vou fingir que estou dormindo! E faço isso com a consciência tranquila, porque com certeza eu estou mais cansado que você. Sou contra essa rigidez das regras dos transportes públicos. Cada caso é um caso. Por que eu especificamente deveria ceder meu lugar pra você? Ralei ontem e você, aposentada, fez tricô, que eu sei. Sem contar que acordei cedo hoje, seis da madruga. É, você também, que eu sei. Ah, mas você é idosa, está acostumada a acordar cedo. É da condição do idoso. 

Vovó – Meu filho, não vê que sou uma senhora de idade? 

Carlos – Não vi, estava dormindo!

Vovó – Já que acordou, seja educado e dê o lugar à velha aqui. 

Carlos – Que isso, a senhora ta ótima. Ainda dá um caldo. 

A Vovó se constrange. Logo em seguida, volta a si e aplica uma bolsada em Carlos. 

Vovó – Insolente!

Carlos se levanta e cede o lugar, contrariado.

Carlos (pensamento) – Droga, não tem saída quando a vovó é cara de pau. Olha lá, tem um moleque sentado num lugar laranja! Está lendo um livro pra disfarçar... Outra excelente tática. Tem meu respeito. Quer dizer, mais ou menos. Um livro de auto-ajuda?! Aos 13 anos e meio? Que Coitado precoce! Esse vai ser um futuro estagiário. Eu tenho faro. Hoje dando o migué na véia por um assento, amanhã entregando papel e tirando cópia por qualquer esmola. Fodido. 





ATO II


CENA I


No escritório. Carlos chega e logo em seguida vem ADOLFO, seu chefe, ao som do leitmotiv do Darth Vader. Diálogo com o chefe. 

Carlos (pensamento), olhando pro chefe – Ai, lá vem esse ser desprezível. O cara não vale uma xerox que ele me manda tirar... Todo ser humano atua com louvor no papel de chefe: Todos conseguem atingir a chatice inerente a esse papel, ainda que sejam péssimos atores. O mesmo vale para o papel de sogra. 

Carlos – Bom dia, chefe.

Adolfo – Quero falar com você. 

Carlos (pensamento) – Deixa eu adivinhar, quer que eu tire cópias e entregue papel? 

Adolfo – Preciso que você tire umas cópias pra mim... E entregue alguns documentos também. 

Carlos – Sim, claro. Vou agora mesmo. É... chefe, sem querer pressionar, mas... não teria alguma peça pra eu fazer não? Um recurso talvez?

Adolfo – Peça? Tá achando que isso é teatro? Não, não tem peça nenhuma pra você fazer. Já disse que quando tiver eu te aviso.

Carlos (pensamento) – Ah, ta, espero sentado? 

Carlos – Tudo bem, vou ao fórum então.

Adolfo, quando Carlos está quase saindo da sala – Cara chato...


CENA II


Carlos vai até a sala dos estagiários se preparar para ir ao fórum. Diálogo com seu amigo, o estagiário JÉFERSON. 

Carlos (pensamento) – Pelo menos esse aí me trata bem. 

Carlos – Fala, Jéferson! 

Jéferson – Grande Carlinhos! Beleza? 

Carlos – Não, vou pro fórum agora. Pelo menos vou poder dar um rolé. Acho que vou aproveitar pra encontrar a Tibúrcia.

Jéferson – Boa, cara. Vem cá, tenho uma idéia aqui pra essa petição que eu tô fazendo, vê se você gosta: ...

Carlos (pensamento) – Ai, toda hora ele tá fazendo petição, que raiva. Não me passam nem petição de juntada...

Jéferson – Tem um trecho aqui: “Vossa excelência não agiu com o habitual acerto”. Sei lá, tá muito formal isso, sabe? Tava pensando em mudar para “Mermão, tu costumava mandar bem, mas nessa decisão tu viajou!”. 

Carlos (pensamento) – Ai, poupe-me dessas piadinhas sem graça... 

Carlos – Hahaha, muito boa.

Jéferson – Aquele estagiário novo, o Asco é muito cara de pau, né? Não faz nada, fica o dia inteiro no orkut. 

Carlos – É mesmo. Um completo inútil. Ih, acho que é ele vindo ali... Fala, Asco, beleza?

Asco – Opa, tudo bem. 

Carlos – Então, galera, vou me adiantando pro fórum, valeu!


CENA III


Antes de fazer as tarefas, Carlos encontra sua namorada TIBÚRCIA numa lanchonete perto do fórum.

Carlos (pensamento) – Lá vem ela, finalmente. Por que mulher sempre se atrasa? Será que elas fazem isso de sacanagem?

Carlos – Oi, amor! Desculpa pela ligação a cobrar! É que eu estou sem créditos!

Tibúrcia – Ai, ai... Tudo bem. Então, vamos comer? Estou morrendo de fome.

Carlos – Vamos! Não posso demorar muito, porque tenho que tirar cópia de uns processos e entregar uns documentos.

Tibúrcia – Caramba, tá intelectual, hein. Vai com calma!

Carlos – Ridícula.

Tibúrcia – Eu também não posso demorar, tenho que fazer um recurso de apelação importante!


Carlos (pensamento) – Que raiva! Será que eu sou o único estagiário que não faz nenhuma peça?

Carlos – Ah, legal.

Tibúrcia, logo após servirem os lanches – Ih, tão me ligando do escritório! Alô. Sim. Tá bom, tô indo agora. Ih, Carlinhos, tenho que ir, as coisas estão pegando fogo no meu escritório. Vou comer o lanche andando mesmo. Você paga? 

Carlos – Poxa, amor, ia falar pra você pagar. Sabe como é, você ganha ticket refeição e eu não.

Tibúrcia – Caraca! Eu ganho mal, mas você é reduzido à condição análoga à de escravo! 

Carlos – Claro que não. Sou abaixo de escravo. Eles pelo menos ganhavam comida.

Tibúrcia – Tá, eu pago. Ai, onde eu fui amarrar meu burro.

Carlos (pensamento) – Caramba, esse escritório tá deixando a Tibúrcia muito gorda! Ainda não tinha detectado essas pelancas laterais.

Tibúrcia – Ouviu? Eu pago! Fala alguma coisa! No que você tá pensando? 

Carlos – Em nada, amor.

Tibúrcia – Ah, se eu pudesse ler seus pensamentos...

Carlos – Garanto que não encontraria nada de mais!


CENA IV


Fila do cartório. Diálogo com DELZILENE, a serventuária.

Carlos (pensamento) – Fila, como sempre... Não vou ser atendido nunca! Se pelo menos eu tivesse um livro pra me distrair, como esse advogado bombado... Deixa eu ver o que ele tá lendo: O pequeno príncipe? Fala sério, bombado! Como esse cara arruma tempo pra malhar tanto assim? Ele tá o dia todo no fórum e...

Delzilene – Pois não, doutor.

Carlos (pensamento) – Ah, que lindo! Vou fingir que não ouvi, só pra ela me chamar de doutor de novo!

Delzilene – Doutor, o senhor é o próximo! 


Carlos (pensamento) – Agora vou fazer uma pose de jurista, senão, posso não convencer.

Carlos – Oh, sim, é a minha vez, como vai?

Delzilene – O que o senhor deseja? 

Carlos, entregando a ela uma boleta – Gostaria de tirar cópias desse processo.

Delzilene – Esse processo está indisponível.

Carlos (pensamento) – Meu Deus! Um milagre! 

Carlos - Puxa vida, que pena, volto amanhã então.

Delzilene – Calma, vou dar uma olhada no sistema pra confirmar.

Carlos (pensamento) – Droga... porque ela resolve trabalhar logo na minha vez?

Carlos – Muito obrigado!

Delzilene – É, doutor, me enganei, o processo tá disponível sim. É aquele volumoso ali. É muito pesado, tem vinte volumes. Você pode pegar ele pra mim?

Carlos (pensamento) – Sem problemas, afinal eu sou pago pra isso e não você, né?

Carlos – Claro, pego sim.

Carlos (pensamento) – Olha o tamanho desse monstro! Vinte volumes! Que se dane toda a história que existe por trás desse processo! Dívidas, mortes, lágrimas, tô cagando horrores pra tudo isso! Pra mim ele não passa de uma enorme pilha de papel.


CENA V


Na fila da xerox com o processo volumoso. Um funcionário (moleque da xerox) atende as pessoas da fila.

Carlos (pensamento) – Tenho que carregar o peso de vinte volumes e só quero cópia de vinte páginas... Acho que isso dá mais raiva do que se eu tivesse que tirar cópia integral desse processo. É, talvez não. 

Carlos – Boa tarde. Quero cópias da página 2032 em diante.

Carlos (pensamento) – Vê se não erra dessa vez... Ontem esse mesmo moleque errou tudo o que eu pedi. Só não fiquei chateado porque é o cliente que paga!

Carlos – Ah, obrigado! O recibo, por favor!

Carlos (pensamento) após receber o recibo – Hum, deu dois reais. Se eu colocar um zero aqui fica vinte reais e ninguém vai reparar! Ah, eu ganho muito mal e tenho quase certeza que esse cliente é aquela empresa 171 que enganou geral. A literatura já me ensinou que quem rouba ladrão é herói. Fora que todo estagiário faz isso mesmo! Já é um costume, ou seja, uma norma jurídica. Quem sou eu pra contrariar! O que eu tô fazendo é que nem cola no colégio: É errado, mas todo mundo faz. Se estudante que não cola não sai da escola, estagiário que não falsifica recibo não é promovido. 


CENA VI


Carlos devolve o processo no cartório. Após, seu celular toca (modelo antiquíssimo, aparelho enorme). Diálogo com o chefe.

Carlos – Hum, celular tocando. Vamos ver quem incomoda... Alô. 

Adolfo – Carlos, preciso que você protocole uma petição pra mim hoje.

Carlos (pensamento) – Ei, sai fora, hoje não é o meu dia de fazer isso!

Carlos – Sim, claro, mas hoje não seria o dia do Asco fazer isso? 

Adolfo – Seria, mas ele foi embora mais cedo hoje. Tava passando mal.

Carlos (pensamento) – Ah, aquele folgado... que morra!

Carlos – E o Jéferson, não pode fazer isso? É que estou muito enrolado com cópias pra tirar e documentos pra entregar. Não sei se vai dar tempo.

Adolfo – O Jéferson também não pode, daqui a pouco eu e o Doutor Von Mitus vamos fazer uma reunião com ele. Ele vai ser promovido a advogado Junior.

Carlos (pensamento) – Que injustiça! Eu sou muito melhor do que ele!

Carlos – Tudo bem então, estou indo pro escritório pegar a petição.

Adolfo – Tá, vem logo. Cara, eu sei que você tá enrolado e tal... mas, se vira, dá teu jeito.

Carlos – OK. Tchau.

Carlos (pensamento) – Socorro! Que pressão! Será que o Bob Marley aguentaria usar meu terno só por um dia? Duvido...




CENA VII


No caminho do escritório, Carlos encontra Dagoberto, seu amigo de infância.

Carlos (pensamento) – Ah, porque todo chefe é babaca? Será que isso é verdade ou eu que invejo a posição dele? Provavelmente os dois. Olha quem vem ali, se não é o Dagoberto! Nossa, não vejo ele há séculos!

Carlos – Fala, Dagoberto!

Dagoberto – Carlos, meu amigo! Quanto tempo!

Carlos – Está sumido, hein! Faz uns três anos que a gente não se vê!

Dagoberto – Pois é!

Carlos – Você já se formou, né? Está se preparando pra algum concurso público?

Dagoberto – Pô, você não ficou sabendo? Passei pra juiz federal no começo desse ano!

Carlos (pensamento) – Que vergonha! Vou dar uma desculpa e vazar antes da pergunta fatal!

Carlos – Parabéns, cara, fico feliz por você! Agora tenho que ir, a gente se esbarra por aí!

Dagoberto – Peraí, mas você nem me falou o que tá fazendo da vida! Tá aí, de terninho, todo engomado! 

Carlos – Eu estou estagiando num escritório. Preciso mesmo ir, tenho que fazer um recurso importante. Sabe como é, sou estagiário, mas só faço trabalho intelectual.

Dagoberto – Tudo bem! Depois a gente se fala!

Carlos (pensamento) – “Sempre que um amigo meu faz sucesso, uma parte de mim morre”. Quem foi mesmo o gênio que disse isso?



ATO III

CENA I


De volta ao escritório, Carlos encontra Adolfo conversando com Jéferson.

Adolfo – Parabéns por essa conquista, Jéferson! Agora você vai assumir sozinho o acervo de processos da empresa Láite S/A. Também não vejo problema em te passar o meu acervo de processos, afinal você tem que pegar experiência, né? (Adolfo cutuca Jéferson com o cotovelo, enquanto fala essa última frase). 

Jéferson – Como você achar melhor, Adolfo. 

Adolfo sai da sala.

Jéferson – Carlos, não sei se você sabe, mas eu sou agora advogado Junior. Preciso que você amanhã tire umas cópias pra mim. E outra coisa: evita ficar encontrando sua namorada durante o expediente, tá? Pega mal. 

Carlos (pensamento) – Quem te viu, quem te vê, hein! Antes era “Carlinhos isso”, “Carlinhos aquilo”... O velho Jéferson foi bom enquanto durou.

Carlos – Tá bom. Preciso falar agora com o Adolfo. 

No corredor que leva à sala do chefe, Carlos olha uma das faxineiras do escritório.

Carlos (pensamento), sorrindo enquanto olha para a faxineira nada simpática – Ah, nada como ver alguém numa situação pior que a sua! Melhor consolo não há!

Carlos bate na porta

Adolfo – Entra.

Carlos – Oi, chefe, vim pegar a petição.

Adolfo – Tá ali em cima. É pra fazer tudo, hein. Corre, senão não vai dar tempo.

Carlos – Tudo bem.

Carlos (pensamento) – Ferrou, cara, não vai dar tempo mesmo...








CENA II


Carlos literalmente correndo pelos corredores do fórum. Após, diálogo com P. DANTE, funcionário do protocolo. 

Carlos (pensamento) – Que situação! Tirei as cópias que faltavam, mas ainda tenho que entregar esses documentos para uns “dizimbas” e protocolar a petição. E o tempo tá voando! 

Carlos sai de cena e volta.

Carlos (pensamento) – Ferrou, o Protocolo fecha às dezoito horas em ponto! Falta 1 minuto pra fechar! Meu Deus!

Carlos chega até o protocolo, quando dá de cara com um funcionário fechando a porta na hora. 

Carlos – Pelo amor de Deus, amigo, vim correndo e cheguei às dezoito horas em ponto! 

P. Dante – Se você assume que chegou às dezoito em ponto, não teremos problema, porque o portão fecha às dezoito em ponto, logo, nesse horário você não poderia entrar... e não entrou. E nem vai entrar.

Carlos – Não faz isso comigo, senhor... (olha o nome do funcionário no crachá) ... P. Dante! Eu vim correndo, fiz um monte de coisa antes! Seja razoável! 

P. Dante – Se eu fosse razoável, seria um desperdício trabalhar no protocolo, você não acha? Deixo a razoabilidade pros juízes. Eu não preciso dela. Eu só cumpro ordens... fechei a porta no horário certo. Chegasse mais cedo...

Carlos, ajoelhado – Senhor Dante, minha vida vai ficar um inferno! Tenha sentimento cristão, por favor! Peço piedade! 

P. Dante – Meu amigo, não vou ganhar nada quebrando o seu galho. Pelo contrário, se eu deixar você entrar, é possível que eu perca o meu emprego.

Carlos – Se eu não conseguir protocolar essa petição, com certeza perderei meu subemprego!

P. Dante – Depois você arruma outro. Não posso fazer nada por você.

Carlos (pensamento) – Mas que filha da puta... É nessas horas que vale a pena saber russo, dá pra xingar à vontade que ele não vai entender nada.
Carlos (sussurrando) – Synsuki [syn soguiá] (filho da puta em russo)

P. Dante – Disse algo? 

Carlos – Não, só tava pensando alto. 

P. Dante – Não, peraí, eu ouvi sim. Você falou russo? 

Carlos – Da! (sim em russo) Você fala russo também?

P. Dante – Claro! Petrovsky Dante, mamãe me ensinou desde pequeno. Haha!

Dá um forte abraço emocionado em Carlos.

Carlos (pensamento) – Nossa, que mundo pequeno! Acho que finalmente essas aulas de russo vão servir pra alguma coisa! Na certa ele agora vai me deixar entrar.

Carlos – Por favor, pozhaluĭsta [pajaulsta] Petrovsky, deixe seu tovarishch [tavarish] (camarada em russo) entrar...

P. Dante – Entrar? Como assim, entrar? Já disse que não pode entrar. Fica insistindo em entrar... já fechou! Ublyudok [ubliudoq] (bastard em russo)!

P. Dante entra e fecha a porta do protocolo.

Carlos – Nãaao! Skaravurska do inferno!!! 


CENA III


Carlos volta pro escritório cabisbaixo. Diálogo com Adolfo. 

Adolfo – Então, conseguiu fazer tudo?

Carlos – É... bem... não...

Adolfo, gritando com desespero – NÃO??? COMO ASSIM???

Carlos – É que... aconteceu uma coisa...

Adolfo – Fala logo, porra!!!

Carlos – Não consegui protocolar a petição. Cheguei na hora que o protocolo fechou.

Adolfo – Tá de sacanagem... Tu tá fudido! O último dia do prazo era hoje! Pra sua sorte, o Doutor Von Mitus, que nunca está no escritório, está bem ali, na sala dele. Lembra que ele veio pra reunião do Jéferson? Tu é um cara morto, Carlos, vou falar com ele agora o que aconteceu. Que jeito bom de ser apresentado ao dono do escritório, hein...

Adolfo sai.


Carlos (pensamento) – Tô morto mesmo! Socoooooorro!!! Cara, preciso pensar no que fazer... Fujo? Coloco a culpa no Adolfo? Não, aí é cavar minha sepultura de vez... 

Carlos ouve um grito de Von Mitus e se assusta (grito harmoniza com um acorde diminuto pra dar um clima de terror). Adolfo volta.

Adolfo – O Doutor Von Mitus quer uma explicação agora. Vamos pra sala dele. E pense bem no que você vai falar.



ATO IV

CENA I


Reunião com o DOUTOR VON MITUS, o dono do escritório. Na sala, além dele, se encontram Carlos e Adolfo. 

Adolfo – Doutor Von Mitus, esse é o Carlos, estagiário.

Carlos – Muito prazer, Doutor! 

Carlos estende a mão e fica no “vácuo”.

Von Mitus, rispidamente – Um desprazer!!! 

Carlos e Adolfo abaixam a cabeça juntos e um breve silêncio se dá ali.

Von Mitus – Eu quero ouvir da sua boca o que aconteceu...

Carlos – Bem, eu estava muito atarefado, mesmo assim achei que podia dar conta de tudo. Acabou que não deu tempo de protocolar a petição que eu levei. Assumo inteiramente a culpa, Doutor. E infelizmente, só posso pedir desculpas pelo ocorrido.

Adolfo, sem chamar atenção, suspira aliviado.

Von Mitus – Mas você é muito burro. Logo a petição? Por que não protocolou a petição antes e deixou de tirar alguma cópia? 

Carlos – Pensei que as cópias fossem importantes...

Von Mitus – Não, não eram. A petição sim era importante. Você sabe o que era exatamente? 

Carlos – Não sei exatamente, Doutor, não deu tempo de ver.

Von Mitus – Era um recurso de apelação. Numa ação de dois milhões de reais. DOIS MILHÕES! Esse é o defeito de vocês estagiários: Parece que pra vocês aquilo é só um papel... não há comprometimento algum! 

Carlos (pensamento) – Caramba, que detetive! Acertou em cheio!

Carlos – Não, Doutor! Sei que eu errei, mas isso que o senhor falou não se aplica a mim, porque eu sempre leio os processos pra saber o que está acontecendo neles e aprender mais. 

Von Mitus – O que mais precisa acontecer pra você ver que prazo é importante??? É preciso que sua mãe morra pra você ver que ela é importante? 

Carlos (pensamento) – Ai, deixa a minha velha fora disso.

Carlos – Não, Doutor. 

Von Mitus – Então por que você perdeu o prazo??? Não dava pra saber que prazo é importante sem perder ele?

Carlos – Doutor, sempre dei muito valor aos prazos.

Von Mitus – Ah é? Pois então me diga, qual é o prazo do recurso de apelação? 

Carlos, respondendo como um soldado – Quinze dias, Doutor! 

Von Mitus – Errado! Vou contar uma história pra você: Perguntaram a um advogado “Qual o prazo do recurso de apelação?”. Ele respondeu: “Um dia”. Depois perguntaram “Qual o prazo do agravo de instrumento?” Ele respondeu: “Um dia”. O homem que fez as perguntas disse então: “Caramba, você não sabe nada de recursos”. O outro respondeu: “Pode ser, mas eu nunca perco um prazo”.
Todos os prazos duram um dia! Se quiser continuar trabalhando aqui, coloca isso na sua cabeça. Já conhecia essa história?

Carlos (pensamento) – Como não conhecer a única história existente no mundo jurídico?

Carlos – Não, Doutor. Obrigado pelo ensinamento, não vou esquecer.

Von Mitus – Acho bom mesmo. Aqui vai outro ensinamento: Se, por exemplo, eu quebrar essa cadeira na sua cabeça...

Carlos (pensamento) – Meu Deus, é agora que ele vai surtar!

Von Mitus - ... eu estarei cometendo um ilícito e vou ter que pagar por ter praticado esse ato. Mas se você perdesse o prazo, toda vez que eu cruzasse com você eu daria uma gargalhada e pensaria: “Olha lá o ‘estagiotário’ vindo! Quebrei a cabeça dele e não paguei nada por isso, porque ele perdeu o prazo!”. Você não suportaria cruzar comigo...

Carlos (pensamento) – Depois desse esporro eu realmente não vou aguentar cruzar com você!

Von Mitus - Você ficaria famoso no escritório. As pessoas falariam: “Você viu aquele estagiário? Gente boa ele, né? Pena que, com um mês de escritório, deu um prejuízo de dois milhões!”. 

Carlos – Sim, Doutor, compreendo a gravidade do meu ato. Peço desculpas.

Von Mitus – Desculpas não prolongam prazo! Sabe, cara, eu tenho quarenta e nove anos e trabalho em escritório há trinta anos. Trinta! Eu tô cansado, cara...

Carlos (pensamento) – Que coincidência! Eu trabalho há trinta dias e também já tô de saco cheio!

Von Mitus – Vou te dar mais uma chance, mas é a última! Isso porque ainda podemos ganhar esse processo... Posso confiar em você?

Carlos – Sim, Doutor! Não errarei mais! 

Von Mitus – Então suma da minha sala. (Adolfo faz positivo com a cabeça). Você também, Adolfo. 


CENA II


Carlos e Adolfo saem da sala do Doutor Von Mitus. 

Carlos (pensamento) – Que humilhação! Como vou conseguir olhar pro Von Mitus depois dessa? Como vou conseguir viver depois dessa? Não posso nem dizer “Calma, vai melhorar”, porque a tendência é a pressão aumentar quando eu virar advogado. Que vida! Por que eu não escolhi educação física? Em vez de escritório e clima fúnebre, academia e clima de festa! Mas não... fui na onda dos meus pais e me ferrei! 

Adolfo – Quero as cópias que eu te pedi.

Carlos – Sim, estão aqui. Desse aqui eu consegui.

Adolfo – Boa, cara, brigadão!

Carlos – Esse aqui estava indisponível, não deu pra tirar.

Adolfo – Pô, tá mandando mal, hein.

Carlos – Esse outro eu tirei.

Adolfo – Valeu.

Carlos – Mas esse daqui estava sumido, não deu pra tirar cópias.

Adolfo – Fala sério, né, Carlos. É, minha vó já dizia: “Quem quer, vai; quem não quer, manda”. Mas, enfim, pensei que o Von Mitus fosse te demitir. Eu te demitiria, se estivesse no lugar dele. Vou embora agora. Você pode ir também, mas amanhã chega cedo, porque você tem várias coisas pra fazer no fórum... de Duque de Caxias.

Carlos olha o chefe com um olhar de derrotado.

Carlos – Tudo bem, vou chegar cedo. Até amanhã.

Carlos vê duas faxineiras cochichando. 

Carlos (pensamento) – Ai, essas faxineiras são muito fofoqueiras. Aposto que tão conversando sobre o esporro que eu tomei. A vizinhança toda deve ter ouvido os gritos. Ah, também, coitadas, elas passaram dos quarenta e ganham a mesma coisa que eu. Só resta fofocar mesmo...

Adolfo – Carlos, já ia esquecendo: hoje é o dia de você receber sua bolsa-auxílio. 

Adolfo puxa um monte de nota de 10 reais.

Adolfo – Confere aí se tem 380 reais. Fala sério, você nunca recebeu tanta nota, né? Assina aqui. 

Carlos – Chefe, eh, saiu uma nova lei de estagiários que me beneficia. Agora os estagiários têm o direito de receber as passagens. Eu vou receber a mais pelo transporte, certo?

Adolfo – Você acha que merece receber as passagens depois da merda que você fez? Bom, se você acha que merece, por que não pede pro Doutor Von Mitus agora?

Carlos – Eh... pensando bem, deixa pra lá, até amanhã.


CENA III

No metrô, Carlos está morto de cansaço. Não há diálogos, apenas a marcha fúnebre da sonata nº 12 de Beethoven tocando. O metrô está lotado, mas por sorte um lugar vaga e ele senta.

Carlos – Minha vida é uma verdadeira prisão. Estou cercado de pessoas que dominam a arte de tolher minha liberdade. Como mudar essa situação, meu Deus? Aquele escritório é um inferno, eu só fico entregando papel e tirando xerox... e eu queria tanto fazer uma peça jurídica...

Já sei! Posso fazer uma peça... mas de teatro! Ah, seria perfeito! Pela primeira vez EU estaria no comando. Não precisaria receber ordens do Adolfo nem vômitos verbais do doutor Von Mitus! Minha mãe pararia de debochar de mim! E mais, se eu ficar famoso, acho até que consigo arrumar uma namorada sem as pelancas da Tibúrcia! É isso, vou fazer uma peça! E o melhor de tudo: sem precisar da autorização do meu chefe! Ah, me aguardem! (e adormece falando)

A luz se apaga, e alguns segundos depois acende com a velhinha reclamona cutucando Carlos. Ele acorda cheio de raiva, quase levanta para dar o lugar pra ela, mas muda de ideia.

Carlos – Não, peraí. Cansei dessa peça desse jeito. CORTA! Você, ô figurante, você dá o lugar pra essa velha chata, não eu. Vai, senta lá, vovó, não enche minha paciência.

A velha e o figurante obedecem, meio assustados. Entra um contra-regra com o texto nas mãos.

Contra-regra – Poxa, Carlos, não é assim que tá no texto não...

Carlos – Que se dane o texto, a peça é minha e eu termino como quiser. Agora o controle é meu. Vem, Stravinksy, vem comigo! Faz cara de feliz aí hein porra! (fala pro figurante, que abre um sorriso forçado, enquanto começam os acordes finais do “Pássaro de fogo”, de Stravinsky sob a regência do estagiário).


FIM

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GABRIEL - UMA BIOGRAFIA




Introdução – O nascimento do anjo


Mil novecentos e oitenta e cinco, Engenho Novo, Rio de Janeiro. Nasce Gabriel. Sua mãe, Líbia, mulher bastante religiosa, escolheu um nome de anjo para aquele que, segundo ela, seria o mensageiro de Deus e levaria a boa nova para todos. Gabriel até chegou a usar na infância uma plaquinha no peito escrito “futuro missionário”. Mas o futuro reservava outras coisas ao anjo Gabriel...

Pretendo contar nessas linhas que escrevo como o anjo Gabriel se tornou um anjo decaído, e creio ser alguém capaz de realizar essa função com êxito, porquanto sempre acompanhei de perto a vida desse que foi meu melhor amigo. Impossível não associar sua vida à história de Anakin Skywalker. Assim como Anakin, Gabriel era uma pessoa boa e nisso vocês podem acreditar (às vezes os narradores em primeira pessoa falam a verdade). Contudo, escolhas errôneas levaram ambos da luz às trevas.

Meu livro é uma vida aberta. Por que escrevo a biografia do Gabriel? Escrever sobre sua vida me faz lembrar dos momentos que passamos juntos. Porém, existem outros motivos que me levaram a usar essa pena moderna chamada teclado. Escrevo para refletir sobre seus erros e aprender com os mesmos. Minha falecida avó, que adorava o Gabriel, sempre dizia que “o tolo não aprende, o inteligente aprende com os próprios erros, mas o verdadeiro sábio aprende com os erros dos outros”. Essa é uma tentativa que faço de buscar a verdadeira sabedoria e convido os leitores a fazerem parte dessa busca. Vamos então aprender com os erros do meu amigo.


Cap I – Infância no Engenho Novo


Assim como Gabriel, também nasci e cresci no Engenho Novo. Passei vinte anos da minha vida nesse bairro desprovido de beleza e serviços. Quem define o Engenho Novo como um bairro de passagem define bem. Gabriel morava numa vila simples da Rua Acaú, uma pequena rua de paralelepípedos próxima ao morro São João. Quando Gabriel observava o imenso morro São João com seus barracos humildes e sem pintura jamais passava por sua cabeça que ele seria um dia o rei daquele lugar.

Adorávamos jogar bola na rua Acaú, apesar dos incontáveis machucados e bolhas que eu ganhava por jogar descalço ali. Quem nunca se machucava era o Patrick de Oliveira, que também jogava com a gente. Sim, é ele mesmo, o ator, apresentador e dublador Patrick de Oliveira. Eu morria de inveja do Patrick, porque, enquanto Gabriel e eu jogávamos descalços e sem camisa, o Patrick jogava com camisa oficial, meião oficial, short oficial, caneleira oficial e chuteira de marca. Já dá para imaginar que com todo esse equipamento é evidente que ele não jogava nada. Perdemos contato após essas partidas na rua (não havia razão para o Patrick continuar morando no Engenho Novo), e tenho certeza que o Patrick não lembra de mim e não sabe ainda que nosso amigo Gabriel se foi.

Quando criança, sempre dependi muito de pessoas. Eu não me sentia feliz e completo sem a presença de um amigo (hoje, felizmente, descobri que sou uma excelente companhia para mim mesmo). Quem nunca me deixava na mão na minha infância era o Gabriel. Que amigo verdadeiro! Que companheiro fiel! Sempre estava lá quando eu precisava. O vídeo-game era uma de nossas diversões favoritas. O Gabriel jogava bem todos os jogos, era impressionante. Parece que a verdade está com quem diz: “a malandragem vem do berço”. Gabriel sabia todos os truques de todos os jogos. Com facilidade, ele descobria passagens secretas, decorava códigos, etc. Um dia, jogando “jogos de verão” do videogame Nintendo 8 bits (estou ficando velho), ele apostou que me ganharia no BMX, uma disputa de manobras de bicicleta. Ora, eu jogava muito BMX, não havia como perder dele. Ele disse para eu ir primeiro e eu ingenuamente aceitei. Com vários pulos e rodopios com minha bicicleta, fiz 1500 pontos, um excelente escore. Confiante na minha vitória, qual não foi minha surpresa quando vi seu truque sujo: Gabriel descobriu que antes da corrida efetivamente começar, é possível ganhar pontos pulando com a bicicleta sem que ela ande e a corrida comece. Após fazer 1520 pontos pulando, ele começou a correr. Gabriel, se você puder ler isso de algum lugar, saiba que nunca esquecerei essa sua malandragem!


Cap II - Criação na igreja mórmon


Foi na igreja mórmon que conheci Gabriel. Ambos fomos criados nessa denominação religiosa, e freqüentávamos a igreja do Méier (já disse que o Engenho Novo é desprovido de tudo). Nas aulas da igreja, Gabriel ouvia ensinamentos cristãos como o livre-arbítrio. Ele aprendia que podemos escolher nossas ações, mas não as conseqüências de nossas ações. O exemplo clássico era o do mar com correnteza. Antes de entrarmos no mar, temos várias escolhas: Entrar na água, ficar na areia, molharmos apenas os pés sem entrar na água, ir embora da praia, entre outras. Todavia, quando escolhemos entrar na água, não podemos escolher as conseqüências desse ato. Nós sabíamos do perigo que havia em entrar no mar com correnteza, a placa “perigo correnteza” estava bem ali, mas arriscamos entrar. Pode ser que não haja volta após essa escolha, apenas morte. As doutrinas da igreja como a anteriormente citada eram incapazes de invadir a alma impenetrável de Gabriel. Pobre Gabriel... o tolo não aprende.

Após as aulas vinham as reuniões sacramentais. Meus pais me chamavam para sentar com eles em família, mas eu gostava mesmo era de sentar ao lado do meu amigo Gabriel. Não prestávamos atenção no bispo e nos discursos. Inventei um jogo de formar palavras juntando sílabas das palavras nos hinos e era isso que fazíamos durante a reunião sacramental.

Na igreja, Gabriel, apesar de ser um garoto realmente bom, mostrava às vezes uma pitada da maldade que estava lá dentro e que iria aflorar com poder anos mais tarde. E essa maldade ele mostrava colocando tachinha nas cadeiras e praticando bullying pesado com as crianças gordinhas.

Fui tomado por um pensamento agora: Se Gabriel seguisse firme na igreja, fosse um pacato cidadão, respeitador das leis, formasse uma família, trabalhasse honestamente e pagasse todas as contas com o suor do seu rosto, eu jamais escreveria uma biografia dele. As pessoas não se interessam por vidas corretas e perfeitas assim. Escrevo porque sua vida foi exatamente o contrário disso, uma vida repleta de aventuras, erros e histórias. Espero que essa despretensiosa reflexão não seja capaz de formar delinqüentes por aí.


Cap III – A família do Gabriel


A família do Gabriel era composta por ele, sua mãe, seu pai e seu irmão. Sua mãe se chama Líbia. É uma senhora alta, simpática , de pele morena, que quando está feliz mostra um sorriso bem bonito e sincero, porém seu semblante normal nos faz crer que essa mulher já sofreu muito na vida. Líbia trabalhava fora de casa como cozinheira, o que contribuiu para a grande liberdade que Gabriel possuía, principalmente após o acontecimento que relatarei no capítulo seguinte.

Seu pai se chamava Gregório. Era um homem baixo, também de pele morena, que usava óculos e possuía um ar de severo, o que de fato era. Que não se aponte o dedo acusador aos pais de Gabriel; seus pais lhe deram educação e atenção. Muitas vezes vemos pessoas que cometem algum tipo de ilicitude e já nos apressamos a dizer: “culpa dos pais”. Porém, devemos ter em mente que cada caso concreto deve ser analisado com suas particularidades. O senhor Gregório sempre tentou impor limites aos seus filhos, e culpá-lo pelas atitudes de Gabriel seria incorrer numa injustiça enorme. Eu gostava muito do senhor Gregório, porque, além de ser uma ótima pessoa ele gostava de mim, e é quase impossível não gostar de alguém que gosta de você. Devo ao seu Gregório minha paixão pelo xadrez, pois foi ele que me ensinou esse jogo. Uma semana após aprender o xadrez, eu já ganhava do meu mestre sem nunca mais perder para ele. E para vencê-lo, eu mostrava ser um guerreiro, já que suportava seu bafo (o hálito humano mais forte que já pude sentir). Eu precisava citar esse defeito, pois o senhor Gregório era só virtudes.

Também morava na casa da Rua Acaú o Rogério, irmão mais velho do Gabriel. Ele foi o professor particular do Gabriel na arte de fazer besteira. Rogério, que até hoje é meu amigo, é uma pessoa interessante de se analisar. Ele parecia um verdadeiro pêndulo, que só conseguia viver oscilando da luz às trevas constantemente. Nunca conheci alguém tão metódico no ser “oito ou oitenta”. Quando freqüentava a igreja, Rogério seguia todos os preceitos religiosos e mostrava ter uma fé sincera que dava gosto naqueles que o viam trilhar o caminho reto. Entretanto, quando estava afastado da igreja, fazia todas as merdas que um ser humano é capaz de fazer. Meses depois voltava a freqüentar a igreja e cumpria à risca todos as regras da igreja, que não são poucas. O lado negro da força era forte nesses dois irmãos. Felizmente, como será visto, Rogério não sucumbiu definitivamente.


Cap IV – A morte do pai do Gabriel


Quando Gabriel tinha quinze anos, seu bom pai faleceu. Lutar contra o câncer é tarefa quase impossível, e muitos bravos como o senhor Gregório sucumbem. Perdi um amigo com a morte de meu mestre do xadrez; Gabriel perdeu algo muito mais valioso: seu rumo. Não resta dúvidas de que o senhor Gregório era quem mantinha Gabriel na linha. Se hoje o senhor Gregório estivesse vivo, tenho certeza que Gabriel também estaria. Mas o bom homem se foi, e na pior época possível: na adolescência de Gabriel.

Não é difícil imaginar como Gabriel ficou revoltado com a morte de seu pai. Seu olhar foi se modificando com o passar do tempo, já sendo possível ler nele uma maldade que me incomodava. No seu rádio só tocava Racionais mcs. Suas notas no colégio, que já não eram boas, baixaram consideravelmente. Ele só ia ao colégio para jogar bola. Quando não matava aula, Gabriel não prestava atenção nos professores, apenas conversava com os amigos e atrapalhava a aula, seja com bolinhas ou aviões de papel. Ora, para onde aqueles livros e ensinamentos do colégio levariam ele? Gabriel nunca almejou estudar, ter uma carreira, afinal, de acordo com o filósofo brasileiro Marcelo D2, “quem nasce malandro não quer ser doutor”. Esse é um rico ensinamento que todo brasileiro deve aprender. Isto porque as pessoas ingenuamente acreditam na imagem que nos vendem, de que todos gostariam de ter uma carreira, um trabalho honesto, mas quando não conseguem é sempre devido à falta de oportunidade. Errado! É evidente que nem todos têm oportunidades, mas uma coisa é certa: “quem nasce malandro não quer ser doutor”. O malandro tem outras aspirações. Mesmo que ele tenha uma oportunidade na vida (o que muitas vezes acontece) ele não vai aproveitá-la, simples assim. Percebam como ricos ensinamentos como esse saem às vezes das bocas mais improváveis.


Cap V – O malandro Gabriel


“Malandro” é uma palavra difícil de definir e de arrumar equivalentes em outros idiomas. “Smart”? Longe disso. A palavra “malandro” para os brasileiros (notadamente os cariocas) significa muito mais. Existe o sentido positivo do malandro, aquele que se dá bem sem fazer mal aos outros, e o sentido negativo do malandro, aquele que se dá bem passando por cima dos outros (mais comum que o positivo). Também existe toda uma ginga envolvendo o malandro. Enfim, é uma palavra complexa, porém os brasileiros sabem muito bem que malandro é malandro e mané é mané. Já os estrangeiros não conseguem compreender a malandragem brasileira. Quanto à ginga malandra, isso é facilmente comprovado quando vemos gringos sambando. Mas o melhor exemplo é ouvir a Filarmônica de Berlim tocando Tico-Tico no Fubá. A melhor orquestra do mundo é incapaz de tocar corretamente essa música, que requer um swing malandro para ser, como queria seu compositor, um choro sapeca.

Para viver no Rio de Janeiro, a malandragem é fundamental. A todo momento nos deparamos com o “malandro negativo”, e, se não formos espertos, ele não vai medir esforços para nos passar a perna, seja numa ligação telefônica pedindo dinheiro para um falso resgate, seja se fingindo de pobre para ganhar esmola, entre muitos outros exemplos (os malandros são criativos). Talvez por necessidade, aprendi a útil técnica da “malandragem passiva”, ou seja, consigo detectar os malandros negativos, descobrir seus intentos maldosos e me proteger de suas investidas.

Gabriel era um malandro no sentido positivo. E o malandro nessa fase rebelde, sem a vigilância constante do pai, que falecera, e da mãe, que cozinhava fora, conheceu malandros negativos do bairro e começou a andar com eles. Foi nessa época que começamos a perder contato.

Um dia encontrei com ele na Rua Barão do Bom Retiro, rua principal do Engenho Novo. Gabriel estava diferente, a maldade em seu olhar aumentara visivelmente, suas roupas eram “Cyclone da cabeça aos pés”. Levei um susto, afinal, Cyclone é a marca que os bandidos da facção comando vermelho usam. Mas naquela época, Gabriel era apenas um aspirante de bandido, este era só o seu sonho, assim como muitos sonham em ser engenheiros ou médicos. Sei disso, pois nesse encontro, Gabriel soltou a seguinte pérola que muito me marcou: “Sei que é feio pensar assim, mas o Bill Gates pra mim é um nerd de merda. Admiro mesmo é o Fernandinho Beira-Mar”.

Além disso, ele me contou o que andava fazendo com aquelas más companhias: fumavam cigarro, pichavam muros e já tinham até experimentado maconha. Mas aquilo era só o começo. O começo do fim.


Cap VI – Descendo todos os degraus

        
Quando Gabriel começou a andar com aquele bando de mau elemento, ele já havia abandonado a igreja. Raramente ele ia aos domingos, dando as caras somente no futebol que lá jogávamos. Gabriel não tinha muita habilidade, mas jogava com uma disposição incrível. Ele era muito corajoso, disputava com sangue e suor cada bola (Gabriel não era corajoso apenas no futebol, como será visto). Não esqueço dos amigos que ele levava para o futebol: todos com cara de assassino drogado, com camisa pólo listrada, boné de aba reta e chinelo kenner. Nunca joguei com pessoas tão violentas. Minha canela saia arrasada das partidas.

Gabriel foi aos poucos subindo os degraus até chegar ao topo. Isso na concepção dele, pois na minha foi justamente o contrário: Gabriel desceu todos os degraus até chegar no fundo do poço. Eu pude ver de perto esse declínio do meu amigo, mas fui incapaz de ajudá-lo. Não sei se eu ajudaria ele, mas não me perdôo por nem ao menos ter tentado conversar, apontar os erros em suas ações e tirá-lo do caminho da perdição.

Gabriel desceu o primeiro degrau quando começou a andar com esses bandidos em potencial. Vejamos agora os demais degraus.


Cap VII – segundo degrau: o moto-táxi


Após conseguir aquelas boas companhias, meu amigo começou a trabalhar no moto-táxi da pracinha onde a Rua Araújo Leitão encontra a Barão do Bom Retiro. Ali Gabriel levava e trazia moradores do morro São João e proximidades.

Aquela pracinha é o ponto de encontro da bandidagem do Engenho Novo. Bom, pelo menos era. Agora, com as UPPs, tudo está pacificado, ou seja, os bandidos do Rio de Janeiro estão espalhados por aí. Naquela pracinha Gabriel aumentou seu círculo de amizade, e como era muito simpático, logo conquistou todos ali.

Um dia, passando em frente à pracinha, avistei meu amigo conversando e rindo com um desses meliantes. Eu não podia simplesmente passar sem falar com meu amigo, estava curioso para saber como ele estava. Gabriel ficou feliz ao meu ver e disse: “Chega mais, quero te apresentar meu amigo, o “Mete-bala”. Muito a contra-gosto apertei a mão dele. Gabriel havia me trocado pelo Mete-bala, um bandidinho de merda com o buço descolorido. Quando perguntei por que seu olho estava tão vermelho, Gabriel respondeu rindo: “É o cigarrinho do capeta!”. 


Cap VIII – terceiro degrau: o aviãozinho do tráfico


Gabriel tinha uma tia de consideração, a Liete, que era cabeleireira. Se o anjo Gabriel deveria trazer as boas novas, quem trazia as péssimas novas era a Liete. Todo mês que a Liete vinha cortar o cabelo da minha mãe ela trazia uma novidade ruim sobre o Gabriel. A notícia do mês era: “Gabriel saiu do moto-táxi e virou aviãozinho do tráfico”.

Gabriel começou a vender na rua a droga que recebia dos traficantes do morro São João. Maconha, ecstasy, cocaína e até o crack, que já pintava por aqui e hoje em dia não para de destruir vidas e famílias. Ali percebi que Gabriel estava entregue ao lado negro da força. Eu havia perdido meu amigo, aquele não era o Gabriel de antes, o bom Gabriel. Foi como se ele tivesse morrido. Aquela havia sido a morte da alma de Gabriel, sua primeira morte. Meu amigo ainda haveria de morrer mais uma vez.


Cap IX – quarto degrau: o soldado da favela


Lá vem a Liete com mais notícias ruins: “Gabriel agora é soldado na favela”. Ou seja, além de vender drogas, Gabriel tinha um fuzil FAL, usado pelo exército brasileiro (quem deve ter vendido essa arma para os bandidos?).

Nessa época, o Morro dos Macacos (da facção Amigos dos amigos) estava em guerra com o São João (da facção Comando vermelho), uma guerra que existe desde os tempos de Adão e Eva. Gabriel defendeu o São João com sucesso em todas as tentativas do Morro dos Macacos de invadir o São João em busca do controle das bocas de fumo dali. Gabriel se colocava à frente dos demais bandidos, ele era de longe o mais corajoso, e por isso foi se tornando o líder natural deles. Maquiavel dizia que o príncipe ideal deve ser amado e ao mesmo tempo temido. Gabriel antes mesmo de se tornar o senhor daquele morro já detinha essas preciosas qualidades: Por seu temperamento e companheirismo, era amado; por sua coragem e disposição, era temido.

Sim, meu amigo já tinha matado pessoas. Era difícil aceitar essa dura realidade. Sua mãe Líbia chegou a me dizer um dia, bastante emocionada: “Agora que ele virou bandido e deve estar matando pessoas, prefiro vê-lo morto”. Imaginem a que ponto chegou o desespero dessa mãe para dizer isso sobre seu filho, que ela tanto amava.

Após colecionar inúmeros assassinatos, o soldado Gabriel passou a fazer a segurança pessoal do chefe do morro São João, o Tripa Seca.


Cap X – No baile funk


Um dia Gabriel resolveu dar as caras na igreja. Todos estavam com camisa branca e gravata. Gabriel preferiu usar Cyclone.

Estava com saudades dele, eu não o via há meses. Após conversarmos bastante, Gabriel começou a me contar dos bailes funks, que eram muito bons e que eu precisava conhecer. Apesar de abominar o funk, eu tinha uma curiosidade imensa de conhecer um baile funk, queria ter essa experiência de vida. Por isso, e também por saber que estaria ao lado do meu amigo, cometi a loucura de aceitar o convite.

O baile funk aconteceu no sábado, numa rua de ladeira do São João. Quando cheguei com o Gabriel, fiquei surpreso ao ver que bem em frente ao começo da ladeira havia um posto da PM, com apenas um policial! O policial parecia estar bem tranqüilo. Não havia dúvidas, aquele policial devia ser um dos mais ricos do Rio de Janeiro. Claro que a riqueza dele não vinha do seu salário de PM, mas sim do “arrego” pago pelos bandidos para a liberação do baile funk.

Foi só começarmos a subir a ladeira para meu coração disparar: um desfile de homens com fuzis e pistolas apontados pra cima e cantando “deixa passar, deixa passar”. Deixei passar. Gabriel cumprimentava todos, estava em casa. O desfile não parava, mais e mais bandidos armados exibiam suas armas. Eles eram os donos do pedaço, daquele pedaço onde o Estado não penetra. Eu estava conhecendo com meus próprios olhos o chamado poder paralelo.

Nunca vi tanto bandido junto, estava petrificado de medo. Aquele exército imenso poderia tomar o RJ se quisesse! Como o Estado permite isso? Como deixaram crescer tanto essa bandidagem? Será que o governador Brizola teve culpa quando disse: “PM não sobe o morro”? São perguntas que não querem calar.

No palco, um mc cantava um funk com a letra mais baixa e erótica possível, enquanto uma mulher horrorosa fazia um strip completo. Ela havia ganho trinta reais para tirar toda a roupa. Após a apresentação do mc, um bandido pegou o microfone e disse que aquele baile era a festa de aniversário do dono do morro, o Tripa Seca. Após dizer isso, todos os bandidos armados deram uma salva de tiros. O barulho era ensurdecedor, e parecia que os fuzis tinham virado lança-chamas. Se tudo o que sobe tem que descer, para onde foram todas aquelas balas? Será que acertaram algum inocente? Alguma criança? Nunca saberei, e talvez seja melhor assim.

Me arrependi completamente de ter ido naquele lugar perigosíssimo. Eu só queria ir embora o quanto antes, portanto, fui me despedir do Gabriel. Nem falei com ele direito, pois quando o encontrei, ele estava se agarrando com uma moça chamada Micaely. Gabriel engravidou Micaely naquela mesma noite em que a conheceu.


Cap XI – O último degrau: O príncipe Gabriel


Gabriel foi morar com Micaely numa casa próxima ao morro São João. Por influência de Líbia, Micaely passou a freqüentar a igreja e Gabriel às vezes ia junto com ela. Quando nasceu Gabriela, a filha do casal, Gabriel costumava sentar no banco da igreja com as duas, e, por um momento, cheguei a pensar que um milagre havia ocorrido na vida dele ao conhecer Micaely e ter tido uma filha com ela. Pura ilusão. O encanto chegava ao fim quando ele me contava suas façanhas: um dia, ele sozinho afugentou três PMs que não “fechavam” com o morro São João; no outro trocou tiros com bandidos do morro dos Macacos. Além disso, ele me disse que deixava a filha e a mulher dormindo e ia para o baile funk “curtir com as novinhas”. Num desses bailes ele conheceu sua amante, a Waldislene, de apenas 14 anos. Quando o funkeiro diz que “as novinhas de catorze já estão prontas pra sentar”, ele age como um sociólogo. De fato, a julgar pelas roupas que elas usam bem como por suas atitudes e danças sensuais, essas garotas de catorze anos já são verdadeiras mulheres, portanto, acerta nossa lei penal ao considerar estupro de vulnerável apenas a conjunção carnal com menores de catorze anos.

Um dia o Tripa Seca estava sozinho e completamente drogado voltando de um baile funk da zona oeste. Um dono de morro não pode vacilar assim. Quando estava próximo ao antigo jardim zoológico, divisa entre o morro São João e o Macaco, três bandidos do morro dos Macacos reconheceram seu inimigo, que estava indefeso. Tripa Seca foi capturado pelos seus rivais, que o decapitaram com uma espada de samurai. Tripa Seca morreu com vinte e sete anos. O reinado no morro dura pouco.

O morro São João precisava de um líder. O pai de família Gabriel, que era corajoso, companheiro, sabia fazer contas, resumindo, que era uma mão-de-obra altamente qualificada, foi o escolhido para suceder o Tripa Seca.

O foco do seu governo era a vingança da morte de Tripa Seca. A guerra se intensificara. O bairro do Engenho Novo estava perigosíssimo. Carros eram roubados e depois queimados. O Brasil estava em tempos de paz interna, mas o São João e o Macaco, como se não fizessem parte desse país, travavam uma guerra violenta.

A favela faz pouco do Estado, talvez porque o Estado faz pouco da favela. Ninguém ali segue as leis do Estado, todos cumprem uma outra lei. Tal lei dos morros não está escrita, pois não é preciso, afinal todos sabem de cor seu inteiro teor. Vejamos agora algumas diferenças entre as leis do Estado e as leis do reino do príncipe Gabriel.


Cap XII – Leis do Estado X leis do morro


De acordo com a Constituição Federal brasileira, “não haverá penas cruéis”. No morro, pena cruel é a regra. Como exemplo, podemos citar o “microondas”, que consiste em queimar a vítima viva dentro de uma série de pneus de carro, o tiro no pé, o clássico fuzilamento ou a já mencionada decapitação por espada de samurai.

Quando um crime ocorre, pela lei brasileira temos o direito de levar o ocorrido às autoridades competentes. Pela lei do morro, temos o dever de ficar em silêncio. A delação na lei brasileira é premiada. Já na lei do morro, “X9 morre cedo”.

A execução da sentença geralmente demora na justiça brasileira morosa. No morro, a execução ocorre logo após a prolação da sentença. Portanto, jamais poderão acusar a justiça do morro de ser lenta.

No Estado, roubo é crime. No morro, roubo é profissão. O mesmo vale para o tráfico de drogas.

Na lei do morro não existem garantias aos que cometem crimes; na lei do Estado brasileiro temos os direitos humanos, algo criado única e exclusivamente para beneficiar os criminosos. Percebam como o Estado é generoso com os bandidos: Se um representante do Estado (um desembargador, por exemplo) comete o crime da favela chamado “alcagoetagem”, ele vai sofrer uma das já citadas penas cruéis caso seja pego pelos bandidos; Se o assassino do desembargador for julgado pela lei brasileira, penas humanas esperam por ele. Evidente que existe todo um discurso retórico de esquerda para justificar isso.

O Estado cobra caro pelo serviço de energia elétrica. No morro, com o “gato”, é de graça, ou no máximo é cobrada por esse serviço uma pequena taxa (quem cobra essa taxa são policiais do Estado, que deveriam combater o crime). Muitas vezes achamos que a favela reúne todos os problemas e misérias da humanidade. Contudo, muitos moradores de favela que não pagam conta de luz vivem o dia todo com clima de montanha, já que nunca desligam seu ar-condicionado.


Cap XIII – A morte do anjo Gabriel


Gabriel seguia como respeitado chefe do morro. Aquele era seu sonho virando realidade. Gabriel via que as pessoas ao seu redor que resolviam se adequar ao sistema e buscar honestamente um emprego, ganhavam em média um salário mínimo. Ora, Gabriel não nasceu para ganhar um salário mínimo; ele queria ser grande (grande não como Fernando Pessoa, mas sim como Fernando Beira-mar). No morro São João, Gabriel mandou e desmandou durante dois anos, um reinado curto sem dúvidas, porém seria mais vantajoso viver uma vida de provações com um salário mínimo? Não para o meu amigo.

Dois anos após assumir o comando do tráfico de drogas do morro São João, Gabriel foi surpreendido por uma invasão dos bandidos do morro dos Macacos. O primeiro a morrer foi Mete-bala, com um tiro certeiro de fuzil AR-15 na cabeça. Gabriel, que já estava na linha de frente comandando os demais companheiros, viu seu amigo tombar na sua frente. Irado, Gabriel avançou demonstrando uma coragem que beirava a temeridade. Como um louco, Gabriel foi matando seus inimigos um por um. Porém, um bandido rival conseguiu acertar uma rajada de tiros na barriga de Gabriel. O guerreiro ainda agüentou até chegar no hospital, porém ali veio a falecer.

Toda essa tragédia foi contada a mim pela Liete. Ela ainda acrescentou que Micaely estava grávida. Gabriel se foi, deixando nesse mundo uma esposa grávida e uma filha. Por sorte, o generoso tráfico do São João paga até hoje uma pensão mensal a Micaely e seus dois filhos.

Morria o anjo Gabriel, jovem, e sem cumprir sua missão de levar o evangelho a todos. Entretanto, será que outra não seria sua missão? A missão de educar pelo exemplo, para que outras pessoas não repitam seus erros? A missão de mostrar a todos que essa “escada” que leva para baixo é real, e que se não fizermos escolhas corretas, podemos passar de um cigarro para a maconha, e da maconha para a cocaína, e das drogas para o tráfico, e do tráfico para o roubo e homicídio, e assim por diante? Não duvidem, isso é real e matou meu amigo.


Cap XIV – O funeral de Gabriel


Fui ao enterro do meu amigo com a Liete e seu irmão. Havia vinte pessoas mais ou menos: Eu, Liete, seu irmão, Líbia, Rogério, Micaely grávida com a filha Gabriela, Waldislene (sua amante de catorze anos), sendo o resto composto por bandidos do São João. Quando Micaely e Waldislene beijaram o morto e disseram que o amavam, houve um clima desagradável ali, porquanto todos concluíram acertadamente que aquela jovem era amante do falecido.
Não pude conter as lágrimas ao ver o corpo de meu pobre amigo. Por sorte, ainda guardo comigo a imagem do Gabriel saudável e sorridente e não daquele monte de carne perfurado por balas de fuzil. Enquanto chorava, me veio à cabeça a “marcha fúnebre para a morte de um herói”, de Beethoven. Mas aquele meu momento profundo de dor foi cortado pelos cantos de funk proibido que os bandidos do São João ali entoavam. “O comando é vermelho! O comando é vermelho”, gritavam sem parar. Líbia não aceitou aquilo, e sob uma fúria incontrolável, disparou: “Calem a boca, seus idiotas! Todos vocês vão acabar como o meu filho”. Todos se calaram num misto de respeito por Líbia e medo daquela inesperada profecia.

O enterro do Gabriel foi muito triste, todos choravam sua morte. Todos, menos seu irmão Rogério. Rogério estava isolado e tinha apenas uma expressão vazia no rosto. Foi quando cheguei perto dele e perguntei: “Está tudo bem?”. Ele me respondeu com uma frieza glacial: “Está tudo ótimo, já sei quem matou meu irmão e vou me vingar”. Senti um arrepio na espinha quando ouvi essa resposta. Ora, eu não agüentava mais olhar meus amigos fazerem escolhas erradas e ficar inerte. Então, olhando em seus olhos e com o dedo em riste, disse: “Chega dessa merda, Rogério! Não quero ir ao seu enterro também. Aprenda com os erros do seu irmão!”. Ele me olhou sério, pensativo e ficou mudo. Uma lágrima correu dos seus olhos. Penso que esse meu alerta surtiu efeito nele, pois Rogério atualmente freqüenta a igreja, trabalha como entregador de encomendas e pretende se casar com sua namorada e formar uma família. Finalmente tomou jeito.


Cap XV – Um dilema ético


Quando ouvimos uma história protagonizada por um bandido, seja num livro ou filme, às vezes torcemos para o sucesso de sua empreitada. Não sei se os leitores dessa biografia ficarão com pena do Gabriel ou dirão “bem feito, teve o que mereceu”. Eu então, que era amigo do falecido, vivo um dilema ético que Aristóteles não me ajudou a solucionar, qual seja, se é correto chorar a morte do bandido Gabriel. Bom, se é correto eu não sei. A única coisa que sei é que chorei e muito sua morte. Perdoem esse sincero escritor. Eu havia perdido para sempre meu melhor amigo. Nada mais me importava.