segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GABRIEL - UMA BIOGRAFIA




Introdução – O nascimento do anjo


Mil novecentos e oitenta e cinco, Engenho Novo, Rio de Janeiro. Nasce Gabriel. Sua mãe, Líbia, mulher bastante religiosa, escolheu um nome de anjo para aquele que, segundo ela, seria o mensageiro de Deus e levaria a boa nova para todos. Gabriel até chegou a usar na infância uma plaquinha no peito escrito “futuro missionário”. Mas o futuro reservava outras coisas ao anjo Gabriel...

Pretendo contar nessas linhas que escrevo como o anjo Gabriel se tornou um anjo decaído, e creio ser alguém capaz de realizar essa função com êxito, porquanto sempre acompanhei de perto a vida desse que foi meu melhor amigo. Impossível não associar sua vida à história de Anakin Skywalker. Assim como Anakin, Gabriel era uma pessoa boa e nisso vocês podem acreditar (às vezes os narradores em primeira pessoa falam a verdade). Contudo, escolhas errôneas levaram ambos da luz às trevas.

Meu livro é uma vida aberta. Por que escrevo a biografia do Gabriel? Escrever sobre sua vida me faz lembrar dos momentos que passamos juntos. Porém, existem outros motivos que me levaram a usar essa pena moderna chamada teclado. Escrevo para refletir sobre seus erros e aprender com os mesmos. Minha falecida avó, que adorava o Gabriel, sempre dizia que “o tolo não aprende, o inteligente aprende com os próprios erros, mas o verdadeiro sábio aprende com os erros dos outros”. Essa é uma tentativa que faço de buscar a verdadeira sabedoria e convido os leitores a fazerem parte dessa busca. Vamos então aprender com os erros do meu amigo.


Cap I – Infância no Engenho Novo


Assim como Gabriel, também nasci e cresci no Engenho Novo. Passei vinte anos da minha vida nesse bairro desprovido de beleza e serviços. Quem define o Engenho Novo como um bairro de passagem define bem. Gabriel morava numa vila simples da Rua Acaú, uma pequena rua de paralelepípedos próxima ao morro São João. Quando Gabriel observava o imenso morro São João com seus barracos humildes e sem pintura jamais passava por sua cabeça que ele seria um dia o rei daquele lugar.

Adorávamos jogar bola na rua Acaú, apesar dos incontáveis machucados e bolhas que eu ganhava por jogar descalço ali. Quem nunca se machucava era o Patrick de Oliveira, que também jogava com a gente. Sim, é ele mesmo, o ator, apresentador e dublador Patrick de Oliveira. Eu morria de inveja do Patrick, porque, enquanto Gabriel e eu jogávamos descalços e sem camisa, o Patrick jogava com camisa oficial, meião oficial, short oficial, caneleira oficial e chuteira de marca. Já dá para imaginar que com todo esse equipamento é evidente que ele não jogava nada. Perdemos contato após essas partidas na rua (não havia razão para o Patrick continuar morando no Engenho Novo), e tenho certeza que o Patrick não lembra de mim e não sabe ainda que nosso amigo Gabriel se foi.

Quando criança, sempre dependi muito de pessoas. Eu não me sentia feliz e completo sem a presença de um amigo (hoje, felizmente, descobri que sou uma excelente companhia para mim mesmo). Quem nunca me deixava na mão na minha infância era o Gabriel. Que amigo verdadeiro! Que companheiro fiel! Sempre estava lá quando eu precisava. O vídeo-game era uma de nossas diversões favoritas. O Gabriel jogava bem todos os jogos, era impressionante. Parece que a verdade está com quem diz: “a malandragem vem do berço”. Gabriel sabia todos os truques de todos os jogos. Com facilidade, ele descobria passagens secretas, decorava códigos, etc. Um dia, jogando “jogos de verão” do videogame Nintendo 8 bits (estou ficando velho), ele apostou que me ganharia no BMX, uma disputa de manobras de bicicleta. Ora, eu jogava muito BMX, não havia como perder dele. Ele disse para eu ir primeiro e eu ingenuamente aceitei. Com vários pulos e rodopios com minha bicicleta, fiz 1500 pontos, um excelente escore. Confiante na minha vitória, qual não foi minha surpresa quando vi seu truque sujo: Gabriel descobriu que antes da corrida efetivamente começar, é possível ganhar pontos pulando com a bicicleta sem que ela ande e a corrida comece. Após fazer 1520 pontos pulando, ele começou a correr. Gabriel, se você puder ler isso de algum lugar, saiba que nunca esquecerei essa sua malandragem!


Cap II - Criação na igreja mórmon


Foi na igreja mórmon que conheci Gabriel. Ambos fomos criados nessa denominação religiosa, e freqüentávamos a igreja do Méier (já disse que o Engenho Novo é desprovido de tudo). Nas aulas da igreja, Gabriel ouvia ensinamentos cristãos como o livre-arbítrio. Ele aprendia que podemos escolher nossas ações, mas não as conseqüências de nossas ações. O exemplo clássico era o do mar com correnteza. Antes de entrarmos no mar, temos várias escolhas: Entrar na água, ficar na areia, molharmos apenas os pés sem entrar na água, ir embora da praia, entre outras. Todavia, quando escolhemos entrar na água, não podemos escolher as conseqüências desse ato. Nós sabíamos do perigo que havia em entrar no mar com correnteza, a placa “perigo correnteza” estava bem ali, mas arriscamos entrar. Pode ser que não haja volta após essa escolha, apenas morte. As doutrinas da igreja como a anteriormente citada eram incapazes de invadir a alma impenetrável de Gabriel. Pobre Gabriel... o tolo não aprende.

Após as aulas vinham as reuniões sacramentais. Meus pais me chamavam para sentar com eles em família, mas eu gostava mesmo era de sentar ao lado do meu amigo Gabriel. Não prestávamos atenção no bispo e nos discursos. Inventei um jogo de formar palavras juntando sílabas das palavras nos hinos e era isso que fazíamos durante a reunião sacramental.

Na igreja, Gabriel, apesar de ser um garoto realmente bom, mostrava às vezes uma pitada da maldade que estava lá dentro e que iria aflorar com poder anos mais tarde. E essa maldade ele mostrava colocando tachinha nas cadeiras e praticando bullying pesado com as crianças gordinhas.

Fui tomado por um pensamento agora: Se Gabriel seguisse firme na igreja, fosse um pacato cidadão, respeitador das leis, formasse uma família, trabalhasse honestamente e pagasse todas as contas com o suor do seu rosto, eu jamais escreveria uma biografia dele. As pessoas não se interessam por vidas corretas e perfeitas assim. Escrevo porque sua vida foi exatamente o contrário disso, uma vida repleta de aventuras, erros e histórias. Espero que essa despretensiosa reflexão não seja capaz de formar delinqüentes por aí.


Cap III – A família do Gabriel


A família do Gabriel era composta por ele, sua mãe, seu pai e seu irmão. Sua mãe se chama Líbia. É uma senhora alta, simpática , de pele morena, que quando está feliz mostra um sorriso bem bonito e sincero, porém seu semblante normal nos faz crer que essa mulher já sofreu muito na vida. Líbia trabalhava fora de casa como cozinheira, o que contribuiu para a grande liberdade que Gabriel possuía, principalmente após o acontecimento que relatarei no capítulo seguinte.

Seu pai se chamava Gregório. Era um homem baixo, também de pele morena, que usava óculos e possuía um ar de severo, o que de fato era. Que não se aponte o dedo acusador aos pais de Gabriel; seus pais lhe deram educação e atenção. Muitas vezes vemos pessoas que cometem algum tipo de ilicitude e já nos apressamos a dizer: “culpa dos pais”. Porém, devemos ter em mente que cada caso concreto deve ser analisado com suas particularidades. O senhor Gregório sempre tentou impor limites aos seus filhos, e culpá-lo pelas atitudes de Gabriel seria incorrer numa injustiça enorme. Eu gostava muito do senhor Gregório, porque, além de ser uma ótima pessoa ele gostava de mim, e é quase impossível não gostar de alguém que gosta de você. Devo ao seu Gregório minha paixão pelo xadrez, pois foi ele que me ensinou esse jogo. Uma semana após aprender o xadrez, eu já ganhava do meu mestre sem nunca mais perder para ele. E para vencê-lo, eu mostrava ser um guerreiro, já que suportava seu bafo (o hálito humano mais forte que já pude sentir). Eu precisava citar esse defeito, pois o senhor Gregório era só virtudes.

Também morava na casa da Rua Acaú o Rogério, irmão mais velho do Gabriel. Ele foi o professor particular do Gabriel na arte de fazer besteira. Rogério, que até hoje é meu amigo, é uma pessoa interessante de se analisar. Ele parecia um verdadeiro pêndulo, que só conseguia viver oscilando da luz às trevas constantemente. Nunca conheci alguém tão metódico no ser “oito ou oitenta”. Quando freqüentava a igreja, Rogério seguia todos os preceitos religiosos e mostrava ter uma fé sincera que dava gosto naqueles que o viam trilhar o caminho reto. Entretanto, quando estava afastado da igreja, fazia todas as merdas que um ser humano é capaz de fazer. Meses depois voltava a freqüentar a igreja e cumpria à risca todos as regras da igreja, que não são poucas. O lado negro da força era forte nesses dois irmãos. Felizmente, como será visto, Rogério não sucumbiu definitivamente.


Cap IV – A morte do pai do Gabriel


Quando Gabriel tinha quinze anos, seu bom pai faleceu. Lutar contra o câncer é tarefa quase impossível, e muitos bravos como o senhor Gregório sucumbem. Perdi um amigo com a morte de meu mestre do xadrez; Gabriel perdeu algo muito mais valioso: seu rumo. Não resta dúvidas de que o senhor Gregório era quem mantinha Gabriel na linha. Se hoje o senhor Gregório estivesse vivo, tenho certeza que Gabriel também estaria. Mas o bom homem se foi, e na pior época possível: na adolescência de Gabriel.

Não é difícil imaginar como Gabriel ficou revoltado com a morte de seu pai. Seu olhar foi se modificando com o passar do tempo, já sendo possível ler nele uma maldade que me incomodava. No seu rádio só tocava Racionais mcs. Suas notas no colégio, que já não eram boas, baixaram consideravelmente. Ele só ia ao colégio para jogar bola. Quando não matava aula, Gabriel não prestava atenção nos professores, apenas conversava com os amigos e atrapalhava a aula, seja com bolinhas ou aviões de papel. Ora, para onde aqueles livros e ensinamentos do colégio levariam ele? Gabriel nunca almejou estudar, ter uma carreira, afinal, de acordo com o filósofo brasileiro Marcelo D2, “quem nasce malandro não quer ser doutor”. Esse é um rico ensinamento que todo brasileiro deve aprender. Isto porque as pessoas ingenuamente acreditam na imagem que nos vendem, de que todos gostariam de ter uma carreira, um trabalho honesto, mas quando não conseguem é sempre devido à falta de oportunidade. Errado! É evidente que nem todos têm oportunidades, mas uma coisa é certa: “quem nasce malandro não quer ser doutor”. O malandro tem outras aspirações. Mesmo que ele tenha uma oportunidade na vida (o que muitas vezes acontece) ele não vai aproveitá-la, simples assim. Percebam como ricos ensinamentos como esse saem às vezes das bocas mais improváveis.


Cap V – O malandro Gabriel


“Malandro” é uma palavra difícil de definir e de arrumar equivalentes em outros idiomas. “Smart”? Longe disso. A palavra “malandro” para os brasileiros (notadamente os cariocas) significa muito mais. Existe o sentido positivo do malandro, aquele que se dá bem sem fazer mal aos outros, e o sentido negativo do malandro, aquele que se dá bem passando por cima dos outros (mais comum que o positivo). Também existe toda uma ginga envolvendo o malandro. Enfim, é uma palavra complexa, porém os brasileiros sabem muito bem que malandro é malandro e mané é mané. Já os estrangeiros não conseguem compreender a malandragem brasileira. Quanto à ginga malandra, isso é facilmente comprovado quando vemos gringos sambando. Mas o melhor exemplo é ouvir a Filarmônica de Berlim tocando Tico-Tico no Fubá. A melhor orquestra do mundo é incapaz de tocar corretamente essa música, que requer um swing malandro para ser, como queria seu compositor, um choro sapeca.

Para viver no Rio de Janeiro, a malandragem é fundamental. A todo momento nos deparamos com o “malandro negativo”, e, se não formos espertos, ele não vai medir esforços para nos passar a perna, seja numa ligação telefônica pedindo dinheiro para um falso resgate, seja se fingindo de pobre para ganhar esmola, entre muitos outros exemplos (os malandros são criativos). Talvez por necessidade, aprendi a útil técnica da “malandragem passiva”, ou seja, consigo detectar os malandros negativos, descobrir seus intentos maldosos e me proteger de suas investidas.

Gabriel era um malandro no sentido positivo. E o malandro nessa fase rebelde, sem a vigilância constante do pai, que falecera, e da mãe, que cozinhava fora, conheceu malandros negativos do bairro e começou a andar com eles. Foi nessa época que começamos a perder contato.

Um dia encontrei com ele na Rua Barão do Bom Retiro, rua principal do Engenho Novo. Gabriel estava diferente, a maldade em seu olhar aumentara visivelmente, suas roupas eram “Cyclone da cabeça aos pés”. Levei um susto, afinal, Cyclone é a marca que os bandidos da facção comando vermelho usam. Mas naquela época, Gabriel era apenas um aspirante de bandido, este era só o seu sonho, assim como muitos sonham em ser engenheiros ou médicos. Sei disso, pois nesse encontro, Gabriel soltou a seguinte pérola que muito me marcou: “Sei que é feio pensar assim, mas o Bill Gates pra mim é um nerd de merda. Admiro mesmo é o Fernandinho Beira-Mar”.

Além disso, ele me contou o que andava fazendo com aquelas más companhias: fumavam cigarro, pichavam muros e já tinham até experimentado maconha. Mas aquilo era só o começo. O começo do fim.


Cap VI – Descendo todos os degraus

        
Quando Gabriel começou a andar com aquele bando de mau elemento, ele já havia abandonado a igreja. Raramente ele ia aos domingos, dando as caras somente no futebol que lá jogávamos. Gabriel não tinha muita habilidade, mas jogava com uma disposição incrível. Ele era muito corajoso, disputava com sangue e suor cada bola (Gabriel não era corajoso apenas no futebol, como será visto). Não esqueço dos amigos que ele levava para o futebol: todos com cara de assassino drogado, com camisa pólo listrada, boné de aba reta e chinelo kenner. Nunca joguei com pessoas tão violentas. Minha canela saia arrasada das partidas.

Gabriel foi aos poucos subindo os degraus até chegar ao topo. Isso na concepção dele, pois na minha foi justamente o contrário: Gabriel desceu todos os degraus até chegar no fundo do poço. Eu pude ver de perto esse declínio do meu amigo, mas fui incapaz de ajudá-lo. Não sei se eu ajudaria ele, mas não me perdôo por nem ao menos ter tentado conversar, apontar os erros em suas ações e tirá-lo do caminho da perdição.

Gabriel desceu o primeiro degrau quando começou a andar com esses bandidos em potencial. Vejamos agora os demais degraus.


Cap VII – segundo degrau: o moto-táxi


Após conseguir aquelas boas companhias, meu amigo começou a trabalhar no moto-táxi da pracinha onde a Rua Araújo Leitão encontra a Barão do Bom Retiro. Ali Gabriel levava e trazia moradores do morro São João e proximidades.

Aquela pracinha é o ponto de encontro da bandidagem do Engenho Novo. Bom, pelo menos era. Agora, com as UPPs, tudo está pacificado, ou seja, os bandidos do Rio de Janeiro estão espalhados por aí. Naquela pracinha Gabriel aumentou seu círculo de amizade, e como era muito simpático, logo conquistou todos ali.

Um dia, passando em frente à pracinha, avistei meu amigo conversando e rindo com um desses meliantes. Eu não podia simplesmente passar sem falar com meu amigo, estava curioso para saber como ele estava. Gabriel ficou feliz ao meu ver e disse: “Chega mais, quero te apresentar meu amigo, o “Mete-bala”. Muito a contra-gosto apertei a mão dele. Gabriel havia me trocado pelo Mete-bala, um bandidinho de merda com o buço descolorido. Quando perguntei por que seu olho estava tão vermelho, Gabriel respondeu rindo: “É o cigarrinho do capeta!”. 


Cap VIII – terceiro degrau: o aviãozinho do tráfico


Gabriel tinha uma tia de consideração, a Liete, que era cabeleireira. Se o anjo Gabriel deveria trazer as boas novas, quem trazia as péssimas novas era a Liete. Todo mês que a Liete vinha cortar o cabelo da minha mãe ela trazia uma novidade ruim sobre o Gabriel. A notícia do mês era: “Gabriel saiu do moto-táxi e virou aviãozinho do tráfico”.

Gabriel começou a vender na rua a droga que recebia dos traficantes do morro São João. Maconha, ecstasy, cocaína e até o crack, que já pintava por aqui e hoje em dia não para de destruir vidas e famílias. Ali percebi que Gabriel estava entregue ao lado negro da força. Eu havia perdido meu amigo, aquele não era o Gabriel de antes, o bom Gabriel. Foi como se ele tivesse morrido. Aquela havia sido a morte da alma de Gabriel, sua primeira morte. Meu amigo ainda haveria de morrer mais uma vez.


Cap IX – quarto degrau: o soldado da favela


Lá vem a Liete com mais notícias ruins: “Gabriel agora é soldado na favela”. Ou seja, além de vender drogas, Gabriel tinha um fuzil FAL, usado pelo exército brasileiro (quem deve ter vendido essa arma para os bandidos?).

Nessa época, o Morro dos Macacos (da facção Amigos dos amigos) estava em guerra com o São João (da facção Comando vermelho), uma guerra que existe desde os tempos de Adão e Eva. Gabriel defendeu o São João com sucesso em todas as tentativas do Morro dos Macacos de invadir o São João em busca do controle das bocas de fumo dali. Gabriel se colocava à frente dos demais bandidos, ele era de longe o mais corajoso, e por isso foi se tornando o líder natural deles. Maquiavel dizia que o príncipe ideal deve ser amado e ao mesmo tempo temido. Gabriel antes mesmo de se tornar o senhor daquele morro já detinha essas preciosas qualidades: Por seu temperamento e companheirismo, era amado; por sua coragem e disposição, era temido.

Sim, meu amigo já tinha matado pessoas. Era difícil aceitar essa dura realidade. Sua mãe Líbia chegou a me dizer um dia, bastante emocionada: “Agora que ele virou bandido e deve estar matando pessoas, prefiro vê-lo morto”. Imaginem a que ponto chegou o desespero dessa mãe para dizer isso sobre seu filho, que ela tanto amava.

Após colecionar inúmeros assassinatos, o soldado Gabriel passou a fazer a segurança pessoal do chefe do morro São João, o Tripa Seca.


Cap X – No baile funk


Um dia Gabriel resolveu dar as caras na igreja. Todos estavam com camisa branca e gravata. Gabriel preferiu usar Cyclone.

Estava com saudades dele, eu não o via há meses. Após conversarmos bastante, Gabriel começou a me contar dos bailes funks, que eram muito bons e que eu precisava conhecer. Apesar de abominar o funk, eu tinha uma curiosidade imensa de conhecer um baile funk, queria ter essa experiência de vida. Por isso, e também por saber que estaria ao lado do meu amigo, cometi a loucura de aceitar o convite.

O baile funk aconteceu no sábado, numa rua de ladeira do São João. Quando cheguei com o Gabriel, fiquei surpreso ao ver que bem em frente ao começo da ladeira havia um posto da PM, com apenas um policial! O policial parecia estar bem tranqüilo. Não havia dúvidas, aquele policial devia ser um dos mais ricos do Rio de Janeiro. Claro que a riqueza dele não vinha do seu salário de PM, mas sim do “arrego” pago pelos bandidos para a liberação do baile funk.

Foi só começarmos a subir a ladeira para meu coração disparar: um desfile de homens com fuzis e pistolas apontados pra cima e cantando “deixa passar, deixa passar”. Deixei passar. Gabriel cumprimentava todos, estava em casa. O desfile não parava, mais e mais bandidos armados exibiam suas armas. Eles eram os donos do pedaço, daquele pedaço onde o Estado não penetra. Eu estava conhecendo com meus próprios olhos o chamado poder paralelo.

Nunca vi tanto bandido junto, estava petrificado de medo. Aquele exército imenso poderia tomar o RJ se quisesse! Como o Estado permite isso? Como deixaram crescer tanto essa bandidagem? Será que o governador Brizola teve culpa quando disse: “PM não sobe o morro”? São perguntas que não querem calar.

No palco, um mc cantava um funk com a letra mais baixa e erótica possível, enquanto uma mulher horrorosa fazia um strip completo. Ela havia ganho trinta reais para tirar toda a roupa. Após a apresentação do mc, um bandido pegou o microfone e disse que aquele baile era a festa de aniversário do dono do morro, o Tripa Seca. Após dizer isso, todos os bandidos armados deram uma salva de tiros. O barulho era ensurdecedor, e parecia que os fuzis tinham virado lança-chamas. Se tudo o que sobe tem que descer, para onde foram todas aquelas balas? Será que acertaram algum inocente? Alguma criança? Nunca saberei, e talvez seja melhor assim.

Me arrependi completamente de ter ido naquele lugar perigosíssimo. Eu só queria ir embora o quanto antes, portanto, fui me despedir do Gabriel. Nem falei com ele direito, pois quando o encontrei, ele estava se agarrando com uma moça chamada Micaely. Gabriel engravidou Micaely naquela mesma noite em que a conheceu.


Cap XI – O último degrau: O príncipe Gabriel


Gabriel foi morar com Micaely numa casa próxima ao morro São João. Por influência de Líbia, Micaely passou a freqüentar a igreja e Gabriel às vezes ia junto com ela. Quando nasceu Gabriela, a filha do casal, Gabriel costumava sentar no banco da igreja com as duas, e, por um momento, cheguei a pensar que um milagre havia ocorrido na vida dele ao conhecer Micaely e ter tido uma filha com ela. Pura ilusão. O encanto chegava ao fim quando ele me contava suas façanhas: um dia, ele sozinho afugentou três PMs que não “fechavam” com o morro São João; no outro trocou tiros com bandidos do morro dos Macacos. Além disso, ele me disse que deixava a filha e a mulher dormindo e ia para o baile funk “curtir com as novinhas”. Num desses bailes ele conheceu sua amante, a Waldislene, de apenas 14 anos. Quando o funkeiro diz que “as novinhas de catorze já estão prontas pra sentar”, ele age como um sociólogo. De fato, a julgar pelas roupas que elas usam bem como por suas atitudes e danças sensuais, essas garotas de catorze anos já são verdadeiras mulheres, portanto, acerta nossa lei penal ao considerar estupro de vulnerável apenas a conjunção carnal com menores de catorze anos.

Um dia o Tripa Seca estava sozinho e completamente drogado voltando de um baile funk da zona oeste. Um dono de morro não pode vacilar assim. Quando estava próximo ao antigo jardim zoológico, divisa entre o morro São João e o Macaco, três bandidos do morro dos Macacos reconheceram seu inimigo, que estava indefeso. Tripa Seca foi capturado pelos seus rivais, que o decapitaram com uma espada de samurai. Tripa Seca morreu com vinte e sete anos. O reinado no morro dura pouco.

O morro São João precisava de um líder. O pai de família Gabriel, que era corajoso, companheiro, sabia fazer contas, resumindo, que era uma mão-de-obra altamente qualificada, foi o escolhido para suceder o Tripa Seca.

O foco do seu governo era a vingança da morte de Tripa Seca. A guerra se intensificara. O bairro do Engenho Novo estava perigosíssimo. Carros eram roubados e depois queimados. O Brasil estava em tempos de paz interna, mas o São João e o Macaco, como se não fizessem parte desse país, travavam uma guerra violenta.

A favela faz pouco do Estado, talvez porque o Estado faz pouco da favela. Ninguém ali segue as leis do Estado, todos cumprem uma outra lei. Tal lei dos morros não está escrita, pois não é preciso, afinal todos sabem de cor seu inteiro teor. Vejamos agora algumas diferenças entre as leis do Estado e as leis do reino do príncipe Gabriel.


Cap XII – Leis do Estado X leis do morro


De acordo com a Constituição Federal brasileira, “não haverá penas cruéis”. No morro, pena cruel é a regra. Como exemplo, podemos citar o “microondas”, que consiste em queimar a vítima viva dentro de uma série de pneus de carro, o tiro no pé, o clássico fuzilamento ou a já mencionada decapitação por espada de samurai.

Quando um crime ocorre, pela lei brasileira temos o direito de levar o ocorrido às autoridades competentes. Pela lei do morro, temos o dever de ficar em silêncio. A delação na lei brasileira é premiada. Já na lei do morro, “X9 morre cedo”.

A execução da sentença geralmente demora na justiça brasileira morosa. No morro, a execução ocorre logo após a prolação da sentença. Portanto, jamais poderão acusar a justiça do morro de ser lenta.

No Estado, roubo é crime. No morro, roubo é profissão. O mesmo vale para o tráfico de drogas.

Na lei do morro não existem garantias aos que cometem crimes; na lei do Estado brasileiro temos os direitos humanos, algo criado única e exclusivamente para beneficiar os criminosos. Percebam como o Estado é generoso com os bandidos: Se um representante do Estado (um desembargador, por exemplo) comete o crime da favela chamado “alcagoetagem”, ele vai sofrer uma das já citadas penas cruéis caso seja pego pelos bandidos; Se o assassino do desembargador for julgado pela lei brasileira, penas humanas esperam por ele. Evidente que existe todo um discurso retórico de esquerda para justificar isso.

O Estado cobra caro pelo serviço de energia elétrica. No morro, com o “gato”, é de graça, ou no máximo é cobrada por esse serviço uma pequena taxa (quem cobra essa taxa são policiais do Estado, que deveriam combater o crime). Muitas vezes achamos que a favela reúne todos os problemas e misérias da humanidade. Contudo, muitos moradores de favela que não pagam conta de luz vivem o dia todo com clima de montanha, já que nunca desligam seu ar-condicionado.


Cap XIII – A morte do anjo Gabriel


Gabriel seguia como respeitado chefe do morro. Aquele era seu sonho virando realidade. Gabriel via que as pessoas ao seu redor que resolviam se adequar ao sistema e buscar honestamente um emprego, ganhavam em média um salário mínimo. Ora, Gabriel não nasceu para ganhar um salário mínimo; ele queria ser grande (grande não como Fernando Pessoa, mas sim como Fernando Beira-mar). No morro São João, Gabriel mandou e desmandou durante dois anos, um reinado curto sem dúvidas, porém seria mais vantajoso viver uma vida de provações com um salário mínimo? Não para o meu amigo.

Dois anos após assumir o comando do tráfico de drogas do morro São João, Gabriel foi surpreendido por uma invasão dos bandidos do morro dos Macacos. O primeiro a morrer foi Mete-bala, com um tiro certeiro de fuzil AR-15 na cabeça. Gabriel, que já estava na linha de frente comandando os demais companheiros, viu seu amigo tombar na sua frente. Irado, Gabriel avançou demonstrando uma coragem que beirava a temeridade. Como um louco, Gabriel foi matando seus inimigos um por um. Porém, um bandido rival conseguiu acertar uma rajada de tiros na barriga de Gabriel. O guerreiro ainda agüentou até chegar no hospital, porém ali veio a falecer.

Toda essa tragédia foi contada a mim pela Liete. Ela ainda acrescentou que Micaely estava grávida. Gabriel se foi, deixando nesse mundo uma esposa grávida e uma filha. Por sorte, o generoso tráfico do São João paga até hoje uma pensão mensal a Micaely e seus dois filhos.

Morria o anjo Gabriel, jovem, e sem cumprir sua missão de levar o evangelho a todos. Entretanto, será que outra não seria sua missão? A missão de educar pelo exemplo, para que outras pessoas não repitam seus erros? A missão de mostrar a todos que essa “escada” que leva para baixo é real, e que se não fizermos escolhas corretas, podemos passar de um cigarro para a maconha, e da maconha para a cocaína, e das drogas para o tráfico, e do tráfico para o roubo e homicídio, e assim por diante? Não duvidem, isso é real e matou meu amigo.


Cap XIV – O funeral de Gabriel


Fui ao enterro do meu amigo com a Liete e seu irmão. Havia vinte pessoas mais ou menos: Eu, Liete, seu irmão, Líbia, Rogério, Micaely grávida com a filha Gabriela, Waldislene (sua amante de catorze anos), sendo o resto composto por bandidos do São João. Quando Micaely e Waldislene beijaram o morto e disseram que o amavam, houve um clima desagradável ali, porquanto todos concluíram acertadamente que aquela jovem era amante do falecido.
Não pude conter as lágrimas ao ver o corpo de meu pobre amigo. Por sorte, ainda guardo comigo a imagem do Gabriel saudável e sorridente e não daquele monte de carne perfurado por balas de fuzil. Enquanto chorava, me veio à cabeça a “marcha fúnebre para a morte de um herói”, de Beethoven. Mas aquele meu momento profundo de dor foi cortado pelos cantos de funk proibido que os bandidos do São João ali entoavam. “O comando é vermelho! O comando é vermelho”, gritavam sem parar. Líbia não aceitou aquilo, e sob uma fúria incontrolável, disparou: “Calem a boca, seus idiotas! Todos vocês vão acabar como o meu filho”. Todos se calaram num misto de respeito por Líbia e medo daquela inesperada profecia.

O enterro do Gabriel foi muito triste, todos choravam sua morte. Todos, menos seu irmão Rogério. Rogério estava isolado e tinha apenas uma expressão vazia no rosto. Foi quando cheguei perto dele e perguntei: “Está tudo bem?”. Ele me respondeu com uma frieza glacial: “Está tudo ótimo, já sei quem matou meu irmão e vou me vingar”. Senti um arrepio na espinha quando ouvi essa resposta. Ora, eu não agüentava mais olhar meus amigos fazerem escolhas erradas e ficar inerte. Então, olhando em seus olhos e com o dedo em riste, disse: “Chega dessa merda, Rogério! Não quero ir ao seu enterro também. Aprenda com os erros do seu irmão!”. Ele me olhou sério, pensativo e ficou mudo. Uma lágrima correu dos seus olhos. Penso que esse meu alerta surtiu efeito nele, pois Rogério atualmente freqüenta a igreja, trabalha como entregador de encomendas e pretende se casar com sua namorada e formar uma família. Finalmente tomou jeito.


Cap XV – Um dilema ético


Quando ouvimos uma história protagonizada por um bandido, seja num livro ou filme, às vezes torcemos para o sucesso de sua empreitada. Não sei se os leitores dessa biografia ficarão com pena do Gabriel ou dirão “bem feito, teve o que mereceu”. Eu então, que era amigo do falecido, vivo um dilema ético que Aristóteles não me ajudou a solucionar, qual seja, se é correto chorar a morte do bandido Gabriel. Bom, se é correto eu não sei. A única coisa que sei é que chorei e muito sua morte. Perdoem esse sincero escritor. Eu havia perdido para sempre meu melhor amigo. Nada mais me importava.




















quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MONA LISA DESPREZADA




Vincenzo Peruggia saiu nervosíssimo do Louvre. As coisas nunca saem como planejamos. Seu plano de furtar a Mona Lisa de Leonardo da Vinci era perfeito. Tal plano era um esquema complexo que incluía uso de alta tecnologia e alta propina. Porém, um único erro estragou tudo: Uma câmera recentemente instalada no museu foi ignorada por Peruggia. Segundos após deixar o museu em posse da obra, ele percebeu que estava sendo perseguido por vigias de lá. Os vigias estavam longe, porém a polícia já devia estar sabendo do ocorrido e logo mais estaria em seu encalço.
O italiano tentou se acalmar. Enquanto fugia, pensou que não haveria problemas caso fosse pego. O povo da Itália entenderia seu gesto patriótico, afinal a Mona Lisa é da Itália, e para lá deve retornar! O verdadeiro ladrão chama-se Napoleão Bonaparte! Porém, tal pensamento foi interrompido por outro mais intenso: A polícia que perseguia ele não era a italiana, mas sim a francesa. O italiano temeu receber da polícia uma saraivada de tiros e morrer jovem. Peruggia começou a ter tonturas devido ao nervosismo, e, movido pelo desespero, resolveu se livrar da Mona Lisa, jogando a obra num saco de lixo da rua.
No dia seguinte, Peruggia foi preso, e com muito orgulho confessou seu ato heróico (crime para alguns). Durante sua confissão, ele aproveitou para filosofar, dizendo que a Mona Lisa é a prova de que o Homem é um artista superior a Deus. Seu argumento foi curioso: Para ele, bastava observar a preferência dos turistas. Se Deus fosse o maior artista, o Brasil com suas belezas naturais (criações divinas) seria o país mais visitado pelos turistas; contudo, estes preferem visitar a França por causa do Louvre, por causa da Mona Lisa (criação do Homem). Só para adiantar, o italiano foi realmente considerado herói em seu país e ficou apenas alguns meses preso. Porém, é preciso mencionar algo incrível que aconteceu nesse mesmo dia em que Peruggia foi pego pelos policiais franceses. Candide, o mendigo das redondezas estava andando pelas ruas bastante bêbado. Ele vinha resmungando da vida quando começou a revirar um lixo em busca de algo de valor. Naquele saco ele só havia encontrado um pneu de bicicleta furado, umas caixas vazias, jornais e um quadro. Descontente com sua má sorte, ele arremessou longe o pneu furado, descontando em seguida sua raiva no quadro com chutes e pisões. Um transeunte francês viu tudo e reconheceu o quadro como sendo a autêntica Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, obra recentemente furtada, cujo paradeiro era desconhecido. O homem tentou em vão encaixar os pedaços do quadro, desamassar a tela e juntá-la com o que restou da moldura. Nada podia ser feito, o quadro estava completamente destruído. Aquele homem havia testemunhado o brutal assassinato de Mona Lisa. Nunca mais La Gioconda entreteria as pessoas com seu enigmático sorriso. Não havia jeito, era o fim. O homem então se deu conta de sua impotência e chorou muito. Chorou tanto que era como se a humanidade toda ali chorasse. O mendigo ficou sem entender o motivo do choro e de todo o esforço do homem em recuperar aquele quadro. Como um bom francês que era, o transeunte foi tomado por um pensamento profundo: Quantas Mona Lisas que cruzam nossas vidas não são por nós desprezadas pelo fato de ignorarmos o real valor que elas possuem? 



FIM










sexta-feira, 5 de agosto de 2011

VERO



         Meu nome é Vero e essa é a minha história. A história de um homem que perdeu tudo por ser correto demais. Recebi de meus pais uma educação religiosa e desde pequeno buscava estar sempre ao lado da virtude. Além da bíblia, gostava muito dos livros de ética. Aprendi muito com o povo grego, que tanto valorizou esse tema. Considero-me uma jóia rara, pois as pessoas ao meu redor não dão o mínimo valor à ética. Tudo indica que o império grego acabou e a ética sucumbiu junto.
         Enfim, eu era o espelho do que é bom e correto, não vendo concorrentes em nenhum dos meus próximos. Porém, após ler e refletir bastante, descobri algo que muito me incomodou. Todos sabemos que o certo é nunca faltar com a verdade, porém, percebi que o homem é um ser falso por natureza e eu naquele momento era falso também. Isso porque não nos comunicamos por pensamento, expondo diretamente o que de fato a mente pensou. Na verdade fomos criados com uma espécie de trava que nos faz selecionar quais pensamentos devemos expor por meio da fala. Para mim ficou claro que eu deveria destravar o mecanismo, por se tratar da mais pura falsidade. Eu queria ser um poço de virtude, não podia cometer o tão temido “pecado por pensamento”.
         Após essa descoberta, sentia dor em minha alma quando pensava em dizer “não” mas era obrigado a dizer “sim” seja para parecer politicamente correto ou agradar com vãs mentiras os demais. É o que sucedia quando minha esposa perguntava “Está tudo bem, amor?”. Respondia que sim, mas queria mesmo ser sincero e poder responder “Não, tá tudo uma merda! Você enche meu saco o dia todo! E para de me chamar de amor sempre. É brega.”. Ah, como eu gostaria de expor meu real pensamento! É pena que a pseudo-polidez falava mais alto. Eu precisava dar um basta nisso.
         Um dia aconteceu algo que mudaria minha vida: meu único filho, uma criança alegre e esperta, veio até a mim com um papel e perguntou: “Papai, o que você acha do meu desenho?”. Olhei com curiosidade o desenho. Após, olhei com pena para o garoto. O desenho era horrível. A beleza está na proporção e aquilo era o borrão mais desproporcional já visto pelos olhos humanos. Não sabia se era uma árvore ou um helicóptero. Talvez fosse uma tartaruga. Como se eu estivesse funcionando no automático, já me preparava para responder “Está lindo, meu filho.”, porquanto sempre respondi assim em situações semelhantes. Mas dessa vez não. Se eu respondesse que o desenho estava bonito, meu filho certamente ficaria feliz. Mas será que eu ficaria satisfeito faltando com a verdade? O “turning point” havia chegado. Após hesitar por alguns segundos, respondi confiante: “Quer saber, meu filho? Seu desenho é horroroso.”. O garoto arregalou os olhos e começou a fazer cara de choro, mas não dei a mínima. Tratava-se de uma virada em minha vida. Estava vencendo uma limitação do ser humano e sentia pela primeira vez o gosto da liberdade. A sensação experimentada era tão boa que me empolguei e disse: “Não adianta fazer cara de choro, a verdade é que seu desenho é péssimo. Não sei se é uma tartaruga, árvore ou helicóptero.”. O menino desabou num choro ensurdecedor e com aquela voz de criança em prantos, disse: “É você no desenho, papai.”. Com seus dedinhos miúdos ele apontou para três bolinhas no desenho explicando que eram meus olhos e boca. Fato curioso, eu não tinha nariz. Ele ainda falou: “Não está vendo?”. Incrível, estava claro para ele que era seu pai no desenho. Errado estava eu por não ser capaz de interpretar corretamente. Meu filho ficou arrasado com a história do desenho. Percebi que seguir o caminho correto seria penoso.
         Contarei agora outro acontecimento relativo a minha transformação, digo, evolução. Estava eu andando calmamente na rua em direção a minha casa quando cruzei com três negões capoeiristas que faziam uma apresentação dessa luta. Se os leitores pensam que capoeira não é luta e sim dança ou jogo, esperem até ouvir esse relato inteiro. Um deles tentou apresentar um número no qual deveria correr e em seguida pular um carro dando um salto mortal. O negão errou feio e caiu em cima do carro amassando o teto do veículo e disparando o alarme. Naquela hora tive um pensamento preconceituoso do qual até hoje me arrependo, porém como aqui a lei é “pensei, falei”, não escondi o que havia pensado e disse: “Tinha que ser preto”. O negão, que estava irado por ter errado seu número ficou possuído ao ouvir aquilo. Bufando, ele disse: “Mermão, ta de caô?”. Bastante incomodado, respondi: “Caô? E eu lá sou de mentir?”. Acreditando poder me salvar daquela enrascada, completei: “Veja bem, todos os brancos falam isso quando estão entre eles. Você vai ficar chateado comigo porque eu tive a decência e a coragem de falar o que todos os falsos falam pelas costas?”. Mal terminei essa frase e o negão me acertou um martelo cruzado na cara. Sentindo aquela dor pude entender o porquê de tal nome. O golpe me deixou meio tonto, e talvez por isso me imaginei numa luta de vale-tudo. Podia ouvir a torcida gritar e ver os holofotes me iluminando. Foi uma sensação maravilhosa. Até que tive a brilhante idéia de tentar aplicar um golpe de jiu-jitsu no negão. Não sei nada de jiu-jitsu, mas pensei “assisto as lutas, isso deve bastar”. Tentei levar um deles ao chão e já me imaginava vitorioso, aplicando um armlock e quebrando o braço dele ou uma guilhotina fazendo-o desmaiar (isso porque o jiu-jitsu é uma arte suave). Na minha visão fantasiosa tudo dava certo, porém na realidade pude aprender da pior maneira possível que o jiu-jitsu é ineficaz contra três negões capoeiristas. Enquanto me atracava com um, os outros dois de maldade chutavam as minhas bolas.
         Com um olho roxo, boca sangrando e membro fálico espatifado saí daquele inferno. Fiquei tão traumatizado com essa experiência que hoje em dia saio correndo quando cruzo com um negro, seja adulto ou criança. Eles me olham sem entender nada. Já bem perto de casa lembro que encontrei um mendigo cambaleante vestindo trapos e cheirando muito mal. Aquele ser grotesco ousou se aproximar, me tocou no ombro, coisa que muito me irritou e disse: “Senhor, peço humildemente dinheiro por caridade. Qualquer centavo serve. Tenho fome.”. Qualquer pessoa não-caridosa nessa situação responderia “Hoje ta brabo.”. Eu, espírito livre e honesto, disse: “Vai trabalhar, vagabundo!”. Ele por sua vez disse: “Vou é te furar, filho da puta!”. Eu então falei: “Vai nada. Todo desnutrido, nem agüenta o peso de uma faca. E, por favor, não usa mais essa colônia francesa à base de álcool e mijo, falou? Fede muito.”. Deixei ele me xingando e saí de lá orgulhoso de mim mesmo. A verdade dói, porém eu sabia que guardá-la dói ainda mais.
         Eu já estava vendo que o próximo alvo das minhas verdades seria minha esposa. Minha esposa tinha uma mania chata de perguntar se eu achava feia alguma parte de seu corpo. Isso me dava nos nervos. Se ela não vai gostar de saber que sim, por que pergunta? Até que um dia ela fez a maldita pergunta: “Amor, existe alguma parte do meu corpo que você não gosta?”. Sempre respondia para alegria dela “Gosto de tudo, você é toda linda”. Mas dessa vez não. Olhando nos seus olhos, respondi: “Não gosto dos seus seios murchos. Lembram a uva passa.”. Não disse aquilo para atacá-la, apenas fui sincero e expus essa que sempre foi minha verdadeira opinião. Ela ficou boquiaberta e perguntou: “Você acha mesmo isso?”. Respondi: “Claro. E eu lá sou de mentir?”. Parece que meu lema “pensei, falei” não agradou minha esposa. Ela pediu o divórcio no mesmo dia. Meu filho só faltou soltar fogos quando soube dessa notícia. Um mês depois ele já estava morando na casa da mãe.
         E aconteceu que meus amigos começaram a se afastar de mim. Minhas verdades chocavam. Eu não mais falava o que eles queriam ouvir. Seus vícios eu denunciava de pronto. Nem liguei para esse afastamento, eles eram um bando de falsos, como todos que me cercavam. Perdi tudo, menos o emprego e a família. Mas eu perderia também esses dois, um de cada vez. Fui demitido do meu escritório por falar ao meu chefe que ele era um babaca. Desempregado, passei a morar na casa dos meus pais. Eles aguentaram durante anos minhas sinceras opiniões negativas sobre a aparência e o jeito deles, sabor da comida, entre outros. Quando chegaram no limite me colocaram num asilo, onde estou no momento. Gosto desse asilo porque ele é branquinho, como o meu caráter. É um lugar puro como o céu, e sei que só estou aqui porque trilhei a senda da retidão. Não pensem que mudei ou me arrependi. Até hoje com meus cabelos brancos defendo a verdade. Até hoje apanho também. Nesse asilo mora um velho alto e forte que nunca toma sua medicação. As enfermeiras já sabem que eu só falo a verdade e, querendo saber se o velho tomou o remédio perguntam pra mim que sempre respondo “Ele não tomou o remédio” . O velho fica enfurecido com o alcaguete aqui e em duas ocasiões já me bateu. Mas eu lá sou de mentir?
        
        




FIM

domingo, 31 de julho de 2011

FROM THE NEW WORLD

Não posso afirmar que conheci os EUA, país maior que o gigante Brasil. Porém, o pouco que conheci já é o suficiente para um ser observador como eu tecer comentários sobre aquele lugar, seu povo e sua cultura (ou falta de cultura, como queiram).
Ruas limpas, estradas sem um buraco... É, os EUA têm suas qualidades. Diferente do Brasil, as coisas realmente funcionam lá. Para os americanos, trabalho é virtude, o que espanta um brasileiro carioca, acostumado a ver o trabalho como coisa de otário. Percebi que deveria me comportar. Estava num país sério.
Observando os americanos pude aprender como se comporta um povo educado: Fala pouco, sendo esse pouco em volume baixo; não admite que toquem nele (uma americana chamou o segurança porque uma argentina tocou em seu ombro numa discussão. A argentina, que somente tocou na americana para avisar que aquele assento era dela, foi obrigada pelo segurança a pedir desculpas); detesta que estranhos conversem e brinquem com seus filhos. Os americanos têm uma certa aversão a seres humanos. Em geral preferem robôs. Quanto à aversão, esta se dá principalmente em relação a estrangeiros latinos e muçulmanos. As muçulmanas causam espanto aos americanos por causa de suas roupas. Choque de cultura. Se eu fosse muçulmano eu morreria de rir daquelas roupas americanas, outdoors ambulantes sem criatividade, escrito “Abercrombie”, “Hollister” ou “Aeropostale”.
Observando os brasileiros “teens” nos parques da Disney pude aprender como se comporta um povo mal educado: Gritam e cantam sem parar; sentam no chão, estrategicamente situados nas passagens principais. Espanto, desprezo e pena foi o que pude ler nos olhares dos americanos que observavam os teens brasileiros. Nunca pensei que nossa economia fosse capaz de levar tanto fedelho pra Disney... Os brasileiros são a grande maioria nos parques e eu ia morrer sem saber disso. Até que o capitalismo não é tão mal nesse ponto. Dizem que ele só beneficia poucos, mas um verdadeiro mar de brasileiros, de diversos estados, tem condições de viajar e conhecer o melhor parque de diversões do mundo. Mais do que nunca estou convencido de que fui enganado: o Brasil não é pobre, é rico.
Que povo bonito! Nos EUA você chuta uma moita e aparece uma família loira dos olhos azuis, rosto perfeito, nariz fino, cabelos brilhosos, boca desenhada. É muito fácil fazer filho bonito lá: Uma loira perfeita casa com um loiro bonito e obviamente terão um filho galã. Repita o processo milhões de vezes e voilà, temos um povo bonito. Pena que depois esse filho bonito vai ficar obeso por causa da tão saudável alimentação yankee. Nos parques pude ver algumas americanas loiras maravilhosas com seus 20 e poucos anos fazendo a limpeza. É a primeira vez que vejo faxineiras com cara e corpo de modelo. Lá nos EUA o artificial é celebrado: Comida artificial, montanhas artificiais, lagos artificiais... Parece que eles esnobam o natural. É como se dissessem pra mãe natureza: “Podemos fazer igual ou melhor”. Oh, como eles se enganam! Mas se tem uma coisa que é natural é o cabelo das mulheres. Nada de tinta, brasileiras! É tudo natural (me refiro ao cabelo, não aos seios). Aqui no Brasil é mais complicado fazer filho bonito, porque somos muito misturados etnicamente falando. É necessário que a mistura dê certo, o que na maioria das vezes não ocorre. Mas quando dá certo... Vejamos o meu caso, por exemplo: Mistura de portugueses bonitos, espanhóis bonitos, austríacos bonitos, índios bonitos e quem sabe algum negão bonito, porque meu cabelo tem que ter uma origem. Posso me resumir em uma frase: “Hugo, uma mistura que deu certo”.
A educação que os pais americanos dão aos seus filhos é bem rigorosa. Não deixam passar uma “malcriação”, repreendendo todas com bastante severidade. No aeroporto, vi uma garotinha americana de 4 ou 5 anos. A menina era o capeta, confesso. Porém, fiquei enojado quando vi que a mochila dela era um cachorrinho fofo com um rabo enorme. O pai segurava o rabo do cachorro limitando os movimentos da capetinha. Mostrei pra minha mãe aquela cena grotesca e qual não foi minha surpresa quando ela respondeu: “Nossa, que mochila fofa!”. Mulheres... Aquilo era uma coleira!!! A menina estava sendo tratada como bicho, e o cachorro fofo estava ali apenas para enganar trouxa (desculpa, mãe) porquanto pegaria mal se o pai usasse efetivamente uma coleira.
Falemos acerca da comida. Você, brasileiro, que agora me lê (ainda não fiz sucesso mundial) come bem, muito bem, e talvez não se dê conta disso. A comida americana é junk. Fato curioso, os reis da junk food deveriam ser os melhores nisso, porém, acreditem, a nossa junk food é melhor! O hambúrguer americano lembra a água: é insípido e inodoro. O povo americano não manipula as ervas e demais temperos como os brasileiros. Os molhos são sempre os mesmos: barbecue, ranch, blue chesse, pimenta, pimenta e por fim, pimenta. A regra lá é pimenta em tudo, até no leite (confesso que nesse caso a culpa foi do meu irmãozinho que colocou pimenta no leite achando que fosse açúcar). Não pude conter o riso quando vi um moleque gorducho de 6 anos mais ou menos comendo uma imensa coxa de peru (turkey leg) com a mão. Como os pais permitem isso? Alimentação lá é um atentado contra a dignidade da pessoa humana.
         No tocante ao capitalismo, pude confirmar minha opinião, exposta em outro texto meu: Para o americano, só o lucro interessa. Parece que tudo naquele país é pretexto para o lucro, só está ali tendo em vista o dinheiro. Não vou dizer que é um capitalismo selvagem, porque isso é papo de comunista. Diria que é um capitalismo feroz como eu não conhecia em meu país. Observei sua técnica profissional: espadas de brinquedo sendo vendidas nas lojinhas antes de começar o show. Se você não for até lá comprar, sem problemas, a espada vai até você. Quando o show começa, vendedores anunciam a mesma espada de brinquedo que vendia lá fora. Você é vencido pelo cansaço e compra a maldita espada. No avião eu estava lendo “O nome da rosa” (um romance perfeito). Um americano no meu lado também lia um livro. Pensei: “Aposto que é um livro super capitalista, do tipo ‘como enriquecer em 30 dias’ ou ‘Lucrar é a lei’”. Depois pensei: “que preconceito meu, pode ser muito bem ‘o pequeno príncipe’”. Quando finalmente ele virou a capa do livro pude ler seu título: “A evolução do toyotismo”. O ser humano é menos preconceituoso do que dizem.
         Os negões americanos são em geral mais bonitos, mais altos e mais estilosos que os nossos negros. Usam roupas dois tamanhos acima do seu tamanho normal, chinelo estilo raider com meia e alguns exibem com orgulho seus dentes de ouro. Foi a primeira vez que eu comemorei o fato de não possuir ouro.  O jeito de falar deles também chama a atenção: todo negro americano é um rapper em potencial. Quando a atendente do Mc Donald’s falou “Anything eeelsiiir?” quase respondi “minha filha, tira essa roupa do Mc Donald’s e vai cantar!”. Fiz bem em não falar, provavelmente ela responderia “Damn, you pervert!”. Também percebi que os negros de lá tem a autoestima maior que os daqui. Se eu fosse negro e pudesse escolher aonde morar, escolheria os EUA de hoje. Eu andaria exibindo meus cordões de prata, tênis de basquete e carros de luxo. Quando digo de luxo, não me refiro ao Corolla, que lá nos EUA corresponde ao nosso querido Palio.
         Passei um mês quase naquele país e já estava me acostumando com sua organização. Mas era hora de voltar ao Brasil. Quando o avião começou as manobras de pouso, que contraste: casas feias, uma em cima da outra, uma bagunça. Era o Rio de Janeiro. Meu Deus, como eu amo essa bagunça!





quarta-feira, 6 de julho de 2011

XADREZ ROMÂNTICO








Sou bastante ambicioso
Quero a linda dama ter
Mas estou bem receoso
Pouco tenho a oferecer

Sem dinheiro e sem transporte
Resta a criatividade
Só com ela e muita sorte
Ganho a dama da cidade

Parto para o centro já
Oportunidades viso
Desempregado não dá
Dinheiro é o que mais preciso

Um serviço de peão
Foi tudo o que consegui
Já posso entrar em ação
Convidá-la pra sair

Assim que pude ataquei
Ótima idéia me veio
Meu velho cavalo usei
Chamei-a para um passeio

Completamente ignorado
Me entristeci por inteiro
Todavia isso é passado
Agora o lance é certeiro

Fui chamar sete peões
Companheiros de trabalho
Fizeram pra dama sons
Serenata um ato falho

Que som feio e dissonante
Disse a dama com desdém
Porém seguirei adiante
Desistir não me convém

Para provar destemor
Escalei alta torre branca
A dama não deu valor
E daí disse bem franca

Estava desanimando
Esperança abalada
Fui falar com o Fernando
Um bispo meu camarada

Ele disse Tenha fé
Tudo vai se ajeitar
Se o rei Deus assim quiser
A dama te amará

Parece que o rei não quis
Que defesa intransponível
Outro lance ruim fiz
Piorar é impossível

Serenata fracassou
Me valho do grande roque
O som pesado ela achou
Guitarra não quer que eu toque

Até que o peão sofrido
En passant ele avançou
Consegui ser promovido!
Meu salário aumentou!

E pela primeira vez
Mexi com a minha dama
Aceitou Jogar xadrez
Beijo! Mate! Fim do drama!







sexta-feira, 10 de junho de 2011

DICIONÁRIO DO DIABO (ADENDO)

ADENDO, s. Melhoramentos numa obra fraca.

APÊNDICE, s. Órgão do corpo humano cuja função é contrair apendicite.

BISPO (XADREZ), s. Peça de xadrez que quando apronta pode fugir pelas diagonais. A abertura na qual o bispo branco come o peãozinho preto se chama “ataque inter-racial do bispo pedófilo”.

BONDADE, s. Ingenuidade. Segundo alguns existem razões para acreditar, pois os bons são maioria. É verdade, os bons são maioria, porém os maus são mais poderosos.

BULLYING, s. O mal do século. Sozinho é capaz de gerar assassinos em série, peste e fome. O bullying sempre existiu, contudo só foi levado a sério no Brasil após ganhar um nome em inglês. Recente pesquisa comprovou que os praticantes de bullying torcem para o Jerry; quem sofreu bullying torce para o Tom.

CEBOLA, s. O mais vingativo dos vegetais. Quando cortada, a cebola solta um gás que em contato com a água do olho forma ácido sulfúrico. Sim, é realmente o sulfúrico. Eu disse que era o mais vingativo...

DESAPARECIMENTO, s. Brilhante teoria criada pelo filósofo Hugo Bickel quando tinha nove anos. Segundo este douto, as pessoas pedantes e sem graça na verdade não existem, só estão entre nós para fazer número e desaparecem quando saem do nosso raio de visão. O diretor do filme matrix se baseou nessa teoria sem dar um centavo ao criador dela.

DIABO, s. Ser maligno que não possui relação alguma com esse dicionário.

DICIONÁRIO (2), s. Pai dos burros e dos trapaceiros na adedanha.

DODECAFONISMO, s. Prova incontestável de que a igualdade é ruim até no campo musical.

ESPOSA, s. Mulher com a qual casamos, apenas porque era a nossa namorada na época de casar.

FÓSFORO, s. Palito de dente dos russos. Disse Deus: “Fiat lux”. E houve fósforo.

GAMBITO DO REI, s. Pequeno animal de estimação do rei, famoso por seu mau cheiro.

GÊMEO, s. A forma que Deus inventou para economizar moldes de rostos. Uma generosidade divina quando são bonitos; maldição quando feios.

HETEROSSEXUAL, adj. Pior xingamento que um cabra-macho-analfabeto-funcional pode receber.

KOLOB, s. Estrela onde mora Deus. Em que lugar fica ninguém sabe.

MATE, s. Bebida feita com erva do mesmo nome. Cariocas adoram tomar mate, por isso são péssimos enxadristas.

PERFUME, s. Aroma agradável. As mulheres gastam uma fortuna com perfumes não obstante o melhor deles, o Odor di femmina, ser totalmente grátis.

SEMÁFORO, s. Uma bela oportunidade de emprego na Coréia do Norte.

SEPTICEMIA, s. Para o estudante de Direito, um desvio de septo.

TRAIÇÃO, s. Segundo moderna e eloqüente concepção, traição é traição.

VINGANÇA, s. Ver JUSTIÇA.

ZICA, s. Pereba, pururuca. Enfim, uma palavra qualquer com "Z" pra fechar bonito.










terça-feira, 31 de maio de 2011

ÂNGELO NA COVA DOS LEÕES




A Bíblia não menciona seu nome. Mas saibam todos que seu nome era Ângelo. A Babilônia jamais havia visto uma criança tão bela. Seus cabelos ondulados e seu semblante puro ofuscavam o brilho dos anjos mais divinais. Seu pai, de nome Ajevni, era um renomado príncipe do rei Dario, o Medo. Como vivia ocupado, Ajevni passava pouco tempo com o filho. A mãe de Ângelo, Tereza, era quem o criava, sempre com muito amor e dedicação. Ângelo era um menino sonhador. Ele desejava melhorar o mundo, acabando com a injustiça, as guerras e o mal.  
Um dia, enquanto brincava de correr pela casa, Ângelo foi surpreendido por uma terrível cena: quatro soldados do Rei Dario invadiram sua casa e disseram que, por causa de Ajevni, toda a família dele deveria ser lançada na cova dos leões. Mediante violência pai, mãe e filho foram levados como se não possuíssem valor algum.
No caminho, Ângelo foi ouvindo a conversa dos soldados. Ele pôde compreender que um inocente havia sido colocado na cova dos leões, sendo certo que seu pai, Ajevni, era um dos culpados dessa injustiça (felizmente, Deus havia salvado o inocente tapando a boca de cada leão da cova). O menino com apenas uma década de vida não era capaz de entender essa justiça que punia filho e mãe como se culpados fossem.
Chegando no palácio do rei Dario, Ângelo viu que havia outras famílias ali. As pessoas estavam muito assustadas e pediam misericórdia ao rei. Dentre elas havia uma criança que chorava copiosamente. Ângelo percebeu que se tratava de seu amigo Nabuco, um filho de príncipe, assim como ele.
O rei não se sensibilizou e ordenou aos soldados que levassem as famílias para serem lançadas na cova dos leões. As famílias, em prantos, entraram na cova e despedidas emocionadas começaram a se dar ali. Foi trazida uma pedra e foi posta sobre a boca da cova. Após, o rei dirigiu-se ao seu palácio. Ali ocorreu um banquete animado com muita música. Ao final, o rei dormiu tranquilamente com sono profundo. E aconteceu que começou a sonhar. Sonhou que conversava com Deus e este lhe dizia: “És justo, rei Dario! És justo como Eu sou!”.
Enquanto o rei sonhava, os prisioneiros na cova dos leões viviam um pesadelo. Eles ainda não haviam chegado ao fundo da cova quando os leões começaram a se apoderar deles. Com lágrimas nos olhos, Ângelo viu seu amigo Nabuco ser morto por um leão faminto. A fera pulou em direção ao menino, derrubando ele no chão. Nabuco foi facilmente imobilizado pelo pesado animal. Sem dó, o leão começou a mordê-lo. Os gritos de dor e desespero daquela criança fariam chorar até os homens mais frios desse mundo. Quando Ângelo se virou, uma cena ainda pior o aguardava: a morte de seus pais, na sua frente, de forma brutal. O menino quase desmaiou ao contemplar aquele horror. Quando os pais morreram, os leões começaram a brigar entre si disputando a carne fresca do casal. Naquele momento quase todos que entraram na cova já estavam mortos. Foi quando Ângelo pensou: “Por que Deus salvou o último prisioneiro que aqui se encontrava e permitiu que pessoas tão inocentes quanto ele fossem destroçadas pelos leões?”. Ângelo não obteve resposta. Após esse pensamento, o menino puro e inocente foi atacado por um feroz leão. Todos os seus ossos foram completamente esmigalhados.
Pela manhã o rei se levantou e foi sem pressa à cova dos leões. E, chegando-se à cova, viu que todos haviam sido mortos pelos leões, porquanto Deus não havia tapado a boca das feras. E o rei muito se alegrou disso.
Esta é uma história real que aconteceu numa cova real. Muitas pessoas em viagem ao atual Iraque costumam visitar a famosa cova dos leões, palco da tragédia de Ângelo. Nela ainda podemos ler na parede a seguinte frase escrita na época pelo próprio rei Dario: A PAZ VOS SEJA MULTIPLICADA.

                                                 
                                               FIM