sexta-feira, 5 de agosto de 2011

VERO



         Meu nome é Vero e essa é a minha história. A história de um homem que perdeu tudo por ser correto demais. Recebi de meus pais uma educação religiosa e desde pequeno buscava estar sempre ao lado da virtude. Além da bíblia, gostava muito dos livros de ética. Aprendi muito com o povo grego, que tanto valorizou esse tema. Considero-me uma jóia rara, pois as pessoas ao meu redor não dão o mínimo valor à ética. Tudo indica que o império grego acabou e a ética sucumbiu junto.
         Enfim, eu era o espelho do que é bom e correto, não vendo concorrentes em nenhum dos meus próximos. Porém, após ler e refletir bastante, descobri algo que muito me incomodou. Todos sabemos que o certo é nunca faltar com a verdade, porém, percebi que o homem é um ser falso por natureza e eu naquele momento era falso também. Isso porque não nos comunicamos por pensamento, expondo diretamente o que de fato a mente pensou. Na verdade fomos criados com uma espécie de trava que nos faz selecionar quais pensamentos devemos expor por meio da fala. Para mim ficou claro que eu deveria destravar o mecanismo, por se tratar da mais pura falsidade. Eu queria ser um poço de virtude, não podia cometer o tão temido “pecado por pensamento”.
         Após essa descoberta, sentia dor em minha alma quando pensava em dizer “não” mas era obrigado a dizer “sim” seja para parecer politicamente correto ou agradar com vãs mentiras os demais. É o que sucedia quando minha esposa perguntava “Está tudo bem, amor?”. Respondia que sim, mas queria mesmo ser sincero e poder responder “Não, tá tudo uma merda! Você enche meu saco o dia todo! E para de me chamar de amor sempre. É brega.”. Ah, como eu gostaria de expor meu real pensamento! É pena que a pseudo-polidez falava mais alto. Eu precisava dar um basta nisso.
         Um dia aconteceu algo que mudaria minha vida: meu único filho, uma criança alegre e esperta, veio até a mim com um papel e perguntou: “Papai, o que você acha do meu desenho?”. Olhei com curiosidade o desenho. Após, olhei com pena para o garoto. O desenho era horrível. A beleza está na proporção e aquilo era o borrão mais desproporcional já visto pelos olhos humanos. Não sabia se era uma árvore ou um helicóptero. Talvez fosse uma tartaruga. Como se eu estivesse funcionando no automático, já me preparava para responder “Está lindo, meu filho.”, porquanto sempre respondi assim em situações semelhantes. Mas dessa vez não. Se eu respondesse que o desenho estava bonito, meu filho certamente ficaria feliz. Mas será que eu ficaria satisfeito faltando com a verdade? O “turning point” havia chegado. Após hesitar por alguns segundos, respondi confiante: “Quer saber, meu filho? Seu desenho é horroroso.”. O garoto arregalou os olhos e começou a fazer cara de choro, mas não dei a mínima. Tratava-se de uma virada em minha vida. Estava vencendo uma limitação do ser humano e sentia pela primeira vez o gosto da liberdade. A sensação experimentada era tão boa que me empolguei e disse: “Não adianta fazer cara de choro, a verdade é que seu desenho é péssimo. Não sei se é uma tartaruga, árvore ou helicóptero.”. O menino desabou num choro ensurdecedor e com aquela voz de criança em prantos, disse: “É você no desenho, papai.”. Com seus dedinhos miúdos ele apontou para três bolinhas no desenho explicando que eram meus olhos e boca. Fato curioso, eu não tinha nariz. Ele ainda falou: “Não está vendo?”. Incrível, estava claro para ele que era seu pai no desenho. Errado estava eu por não ser capaz de interpretar corretamente. Meu filho ficou arrasado com a história do desenho. Percebi que seguir o caminho correto seria penoso.
         Contarei agora outro acontecimento relativo a minha transformação, digo, evolução. Estava eu andando calmamente na rua em direção a minha casa quando cruzei com três negões capoeiristas que faziam uma apresentação dessa luta. Se os leitores pensam que capoeira não é luta e sim dança ou jogo, esperem até ouvir esse relato inteiro. Um deles tentou apresentar um número no qual deveria correr e em seguida pular um carro dando um salto mortal. O negão errou feio e caiu em cima do carro amassando o teto do veículo e disparando o alarme. Naquela hora tive um pensamento preconceituoso do qual até hoje me arrependo, porém como aqui a lei é “pensei, falei”, não escondi o que havia pensado e disse: “Tinha que ser preto”. O negão, que estava irado por ter errado seu número ficou possuído ao ouvir aquilo. Bufando, ele disse: “Mermão, ta de caô?”. Bastante incomodado, respondi: “Caô? E eu lá sou de mentir?”. Acreditando poder me salvar daquela enrascada, completei: “Veja bem, todos os brancos falam isso quando estão entre eles. Você vai ficar chateado comigo porque eu tive a decência e a coragem de falar o que todos os falsos falam pelas costas?”. Mal terminei essa frase e o negão me acertou um martelo cruzado na cara. Sentindo aquela dor pude entender o porquê de tal nome. O golpe me deixou meio tonto, e talvez por isso me imaginei numa luta de vale-tudo. Podia ouvir a torcida gritar e ver os holofotes me iluminando. Foi uma sensação maravilhosa. Até que tive a brilhante idéia de tentar aplicar um golpe de jiu-jitsu no negão. Não sei nada de jiu-jitsu, mas pensei “assisto as lutas, isso deve bastar”. Tentei levar um deles ao chão e já me imaginava vitorioso, aplicando um armlock e quebrando o braço dele ou uma guilhotina fazendo-o desmaiar (isso porque o jiu-jitsu é uma arte suave). Na minha visão fantasiosa tudo dava certo, porém na realidade pude aprender da pior maneira possível que o jiu-jitsu é ineficaz contra três negões capoeiristas. Enquanto me atracava com um, os outros dois de maldade chutavam as minhas bolas.
         Com um olho roxo, boca sangrando e membro fálico espatifado saí daquele inferno. Fiquei tão traumatizado com essa experiência que hoje em dia saio correndo quando cruzo com um negro, seja adulto ou criança. Eles me olham sem entender nada. Já bem perto de casa lembro que encontrei um mendigo cambaleante vestindo trapos e cheirando muito mal. Aquele ser grotesco ousou se aproximar, me tocou no ombro, coisa que muito me irritou e disse: “Senhor, peço humildemente dinheiro por caridade. Qualquer centavo serve. Tenho fome.”. Qualquer pessoa não-caridosa nessa situação responderia “Hoje ta brabo.”. Eu, espírito livre e honesto, disse: “Vai trabalhar, vagabundo!”. Ele por sua vez disse: “Vou é te furar, filho da puta!”. Eu então falei: “Vai nada. Todo desnutrido, nem agüenta o peso de uma faca. E, por favor, não usa mais essa colônia francesa à base de álcool e mijo, falou? Fede muito.”. Deixei ele me xingando e saí de lá orgulhoso de mim mesmo. A verdade dói, porém eu sabia que guardá-la dói ainda mais.
         Eu já estava vendo que o próximo alvo das minhas verdades seria minha esposa. Minha esposa tinha uma mania chata de perguntar se eu achava feia alguma parte de seu corpo. Isso me dava nos nervos. Se ela não vai gostar de saber que sim, por que pergunta? Até que um dia ela fez a maldita pergunta: “Amor, existe alguma parte do meu corpo que você não gosta?”. Sempre respondia para alegria dela “Gosto de tudo, você é toda linda”. Mas dessa vez não. Olhando nos seus olhos, respondi: “Não gosto dos seus seios murchos. Lembram a uva passa.”. Não disse aquilo para atacá-la, apenas fui sincero e expus essa que sempre foi minha verdadeira opinião. Ela ficou boquiaberta e perguntou: “Você acha mesmo isso?”. Respondi: “Claro. E eu lá sou de mentir?”. Parece que meu lema “pensei, falei” não agradou minha esposa. Ela pediu o divórcio no mesmo dia. Meu filho só faltou soltar fogos quando soube dessa notícia. Um mês depois ele já estava morando na casa da mãe.
         E aconteceu que meus amigos começaram a se afastar de mim. Minhas verdades chocavam. Eu não mais falava o que eles queriam ouvir. Seus vícios eu denunciava de pronto. Nem liguei para esse afastamento, eles eram um bando de falsos, como todos que me cercavam. Perdi tudo, menos o emprego e a família. Mas eu perderia também esses dois, um de cada vez. Fui demitido do meu escritório por falar ao meu chefe que ele era um babaca. Desempregado, passei a morar na casa dos meus pais. Eles aguentaram durante anos minhas sinceras opiniões negativas sobre a aparência e o jeito deles, sabor da comida, entre outros. Quando chegaram no limite me colocaram num asilo, onde estou no momento. Gosto desse asilo porque ele é branquinho, como o meu caráter. É um lugar puro como o céu, e sei que só estou aqui porque trilhei a senda da retidão. Não pensem que mudei ou me arrependi. Até hoje com meus cabelos brancos defendo a verdade. Até hoje apanho também. Nesse asilo mora um velho alto e forte que nunca toma sua medicação. As enfermeiras já sabem que eu só falo a verdade e, querendo saber se o velho tomou o remédio perguntam pra mim que sempre respondo “Ele não tomou o remédio” . O velho fica enfurecido com o alcaguete aqui e em duas ocasiões já me bateu. Mas eu lá sou de mentir?
        
        




FIM

domingo, 31 de julho de 2011

FROM THE NEW WORLD

Não posso afirmar que conheci os EUA, país maior que o gigante Brasil. Porém, o pouco que conheci já é o suficiente para um ser observador como eu tecer comentários sobre aquele lugar, seu povo e sua cultura (ou falta de cultura, como queiram).
Ruas limpas, estradas sem um buraco... É, os EUA têm suas qualidades. Diferente do Brasil, as coisas realmente funcionam lá. Para os americanos, trabalho é virtude, o que espanta um brasileiro carioca, acostumado a ver o trabalho como coisa de otário. Percebi que deveria me comportar. Estava num país sério.
Observando os americanos pude aprender como se comporta um povo educado: Fala pouco, sendo esse pouco em volume baixo; não admite que toquem nele (uma americana chamou o segurança porque uma argentina tocou em seu ombro numa discussão. A argentina, que somente tocou na americana para avisar que aquele assento era dela, foi obrigada pelo segurança a pedir desculpas); detesta que estranhos conversem e brinquem com seus filhos. Os americanos têm uma certa aversão a seres humanos. Em geral preferem robôs. Quanto à aversão, esta se dá principalmente em relação a estrangeiros latinos e muçulmanos. As muçulmanas causam espanto aos americanos por causa de suas roupas. Choque de cultura. Se eu fosse muçulmano eu morreria de rir daquelas roupas americanas, outdoors ambulantes sem criatividade, escrito “Abercrombie”, “Hollister” ou “Aeropostale”.
Observando os brasileiros “teens” nos parques da Disney pude aprender como se comporta um povo mal educado: Gritam e cantam sem parar; sentam no chão, estrategicamente situados nas passagens principais. Espanto, desprezo e pena foi o que pude ler nos olhares dos americanos que observavam os teens brasileiros. Nunca pensei que nossa economia fosse capaz de levar tanto fedelho pra Disney... Os brasileiros são a grande maioria nos parques e eu ia morrer sem saber disso. Até que o capitalismo não é tão mal nesse ponto. Dizem que ele só beneficia poucos, mas um verdadeiro mar de brasileiros, de diversos estados, tem condições de viajar e conhecer o melhor parque de diversões do mundo. Mais do que nunca estou convencido de que fui enganado: o Brasil não é pobre, é rico.
Que povo bonito! Nos EUA você chuta uma moita e aparece uma família loira dos olhos azuis, rosto perfeito, nariz fino, cabelos brilhosos, boca desenhada. É muito fácil fazer filho bonito lá: Uma loira perfeita casa com um loiro bonito e obviamente terão um filho galã. Repita o processo milhões de vezes e voilà, temos um povo bonito. Pena que depois esse filho bonito vai ficar obeso por causa da tão saudável alimentação yankee. Nos parques pude ver algumas americanas loiras maravilhosas com seus 20 e poucos anos fazendo a limpeza. É a primeira vez que vejo faxineiras com cara e corpo de modelo. Lá nos EUA o artificial é celebrado: Comida artificial, montanhas artificiais, lagos artificiais... Parece que eles esnobam o natural. É como se dissessem pra mãe natureza: “Podemos fazer igual ou melhor”. Oh, como eles se enganam! Mas se tem uma coisa que é natural é o cabelo das mulheres. Nada de tinta, brasileiras! É tudo natural (me refiro ao cabelo, não aos seios). Aqui no Brasil é mais complicado fazer filho bonito, porque somos muito misturados etnicamente falando. É necessário que a mistura dê certo, o que na maioria das vezes não ocorre. Mas quando dá certo... Vejamos o meu caso, por exemplo: Mistura de portugueses bonitos, espanhóis bonitos, austríacos bonitos, índios bonitos e quem sabe algum negão bonito, porque meu cabelo tem que ter uma origem. Posso me resumir em uma frase: “Hugo, uma mistura que deu certo”.
A educação que os pais americanos dão aos seus filhos é bem rigorosa. Não deixam passar uma “malcriação”, repreendendo todas com bastante severidade. No aeroporto, vi uma garotinha americana de 4 ou 5 anos. A menina era o capeta, confesso. Porém, fiquei enojado quando vi que a mochila dela era um cachorrinho fofo com um rabo enorme. O pai segurava o rabo do cachorro limitando os movimentos da capetinha. Mostrei pra minha mãe aquela cena grotesca e qual não foi minha surpresa quando ela respondeu: “Nossa, que mochila fofa!”. Mulheres... Aquilo era uma coleira!!! A menina estava sendo tratada como bicho, e o cachorro fofo estava ali apenas para enganar trouxa (desculpa, mãe) porquanto pegaria mal se o pai usasse efetivamente uma coleira.
Falemos acerca da comida. Você, brasileiro, que agora me lê (ainda não fiz sucesso mundial) come bem, muito bem, e talvez não se dê conta disso. A comida americana é junk. Fato curioso, os reis da junk food deveriam ser os melhores nisso, porém, acreditem, a nossa junk food é melhor! O hambúrguer americano lembra a água: é insípido e inodoro. O povo americano não manipula as ervas e demais temperos como os brasileiros. Os molhos são sempre os mesmos: barbecue, ranch, blue chesse, pimenta, pimenta e por fim, pimenta. A regra lá é pimenta em tudo, até no leite (confesso que nesse caso a culpa foi do meu irmãozinho que colocou pimenta no leite achando que fosse açúcar). Não pude conter o riso quando vi um moleque gorducho de 6 anos mais ou menos comendo uma imensa coxa de peru (turkey leg) com a mão. Como os pais permitem isso? Alimentação lá é um atentado contra a dignidade da pessoa humana.
         No tocante ao capitalismo, pude confirmar minha opinião, exposta em outro texto meu: Para o americano, só o lucro interessa. Parece que tudo naquele país é pretexto para o lucro, só está ali tendo em vista o dinheiro. Não vou dizer que é um capitalismo selvagem, porque isso é papo de comunista. Diria que é um capitalismo feroz como eu não conhecia em meu país. Observei sua técnica profissional: espadas de brinquedo sendo vendidas nas lojinhas antes de começar o show. Se você não for até lá comprar, sem problemas, a espada vai até você. Quando o show começa, vendedores anunciam a mesma espada de brinquedo que vendia lá fora. Você é vencido pelo cansaço e compra a maldita espada. No avião eu estava lendo “O nome da rosa” (um romance perfeito). Um americano no meu lado também lia um livro. Pensei: “Aposto que é um livro super capitalista, do tipo ‘como enriquecer em 30 dias’ ou ‘Lucrar é a lei’”. Depois pensei: “que preconceito meu, pode ser muito bem ‘o pequeno príncipe’”. Quando finalmente ele virou a capa do livro pude ler seu título: “A evolução do toyotismo”. O ser humano é menos preconceituoso do que dizem.
         Os negões americanos são em geral mais bonitos, mais altos e mais estilosos que os nossos negros. Usam roupas dois tamanhos acima do seu tamanho normal, chinelo estilo raider com meia e alguns exibem com orgulho seus dentes de ouro. Foi a primeira vez que eu comemorei o fato de não possuir ouro.  O jeito de falar deles também chama a atenção: todo negro americano é um rapper em potencial. Quando a atendente do Mc Donald’s falou “Anything eeelsiiir?” quase respondi “minha filha, tira essa roupa do Mc Donald’s e vai cantar!”. Fiz bem em não falar, provavelmente ela responderia “Damn, you pervert!”. Também percebi que os negros de lá tem a autoestima maior que os daqui. Se eu fosse negro e pudesse escolher aonde morar, escolheria os EUA de hoje. Eu andaria exibindo meus cordões de prata, tênis de basquete e carros de luxo. Quando digo de luxo, não me refiro ao Corolla, que lá nos EUA corresponde ao nosso querido Palio.
         Passei um mês quase naquele país e já estava me acostumando com sua organização. Mas era hora de voltar ao Brasil. Quando o avião começou as manobras de pouso, que contraste: casas feias, uma em cima da outra, uma bagunça. Era o Rio de Janeiro. Meu Deus, como eu amo essa bagunça!





quarta-feira, 6 de julho de 2011

XADREZ ROMÂNTICO








Sou bastante ambicioso
Quero a linda dama ter
Mas estou bem receoso
Pouco tenho a oferecer

Sem dinheiro e sem transporte
Resta a criatividade
Só com ela e muita sorte
Ganho a dama da cidade

Parto para o centro já
Oportunidades viso
Desempregado não dá
Dinheiro é o que mais preciso

Um serviço de peão
Foi tudo o que consegui
Já posso entrar em ação
Convidá-la pra sair

Assim que pude ataquei
Ótima idéia me veio
Meu velho cavalo usei
Chamei-a para um passeio

Completamente ignorado
Me entristeci por inteiro
Todavia isso é passado
Agora o lance é certeiro

Fui chamar sete peões
Companheiros de trabalho
Fizeram pra dama sons
Serenata um ato falho

Que som feio e dissonante
Disse a dama com desdém
Porém seguirei adiante
Desistir não me convém

Para provar destemor
Escalei alta torre branca
A dama não deu valor
E daí disse bem franca

Estava desanimando
Esperança abalada
Fui falar com o Fernando
Um bispo meu camarada

Ele disse Tenha fé
Tudo vai se ajeitar
Se o rei Deus assim quiser
A dama te amará

Parece que o rei não quis
Que defesa intransponível
Outro lance ruim fiz
Piorar é impossível

Serenata fracassou
Me valho do grande roque
O som pesado ela achou
Guitarra não quer que eu toque

Até que o peão sofrido
En passant ele avançou
Consegui ser promovido!
Meu salário aumentou!

E pela primeira vez
Mexi com a minha dama
Aceitou Jogar xadrez
Beijo! Mate! Fim do drama!







sexta-feira, 10 de junho de 2011

DICIONÁRIO DO DIABO (ADENDO)

ADENDO, s. Melhoramentos numa obra fraca.

APÊNDICE, s. Órgão do corpo humano cuja função é contrair apendicite.

BISPO (XADREZ), s. Peça de xadrez que quando apronta pode fugir pelas diagonais. A abertura na qual o bispo branco come o peãozinho preto se chama “ataque inter-racial do bispo pedófilo”.

BONDADE, s. Ingenuidade. Segundo alguns existem razões para acreditar, pois os bons são maioria. É verdade, os bons são maioria, porém os maus são mais poderosos.

BULLYING, s. O mal do século. Sozinho é capaz de gerar assassinos em série, peste e fome. O bullying sempre existiu, contudo só foi levado a sério no Brasil após ganhar um nome em inglês. Recente pesquisa comprovou que os praticantes de bullying torcem para o Jerry; quem sofreu bullying torce para o Tom.

CEBOLA, s. O mais vingativo dos vegetais. Quando cortada, a cebola solta um gás que em contato com a água do olho forma ácido sulfúrico. Sim, é realmente o sulfúrico. Eu disse que era o mais vingativo...

DESAPARECIMENTO, s. Brilhante teoria criada pelo filósofo Hugo Bickel quando tinha nove anos. Segundo este douto, as pessoas pedantes e sem graça na verdade não existem, só estão entre nós para fazer número e desaparecem quando saem do nosso raio de visão. O diretor do filme matrix se baseou nessa teoria sem dar um centavo ao criador dela.

DIABO, s. Ser maligno que não possui relação alguma com esse dicionário.

DICIONÁRIO (2), s. Pai dos burros e dos trapaceiros na adedanha.

DODECAFONISMO, s. Prova incontestável de que a igualdade é ruim até no campo musical.

ESPOSA, s. Mulher com a qual casamos, apenas porque era a nossa namorada na época de casar.

FÓSFORO, s. Palito de dente dos russos. Disse Deus: “Fiat lux”. E houve fósforo.

GAMBITO DO REI, s. Pequeno animal de estimação do rei, famoso por seu mau cheiro.

GÊMEO, s. A forma que Deus inventou para economizar moldes de rostos. Uma generosidade divina quando são bonitos; maldição quando feios.

HETEROSSEXUAL, adj. Pior xingamento que um cabra-macho-analfabeto-funcional pode receber.

KOLOB, s. Estrela onde mora Deus. Em que lugar fica ninguém sabe.

MATE, s. Bebida feita com erva do mesmo nome. Cariocas adoram tomar mate, por isso são péssimos enxadristas.

PERFUME, s. Aroma agradável. As mulheres gastam uma fortuna com perfumes não obstante o melhor deles, o Odor di femmina, ser totalmente grátis.

SEMÁFORO, s. Uma bela oportunidade de emprego na Coréia do Norte.

SEPTICEMIA, s. Para o estudante de Direito, um desvio de septo.

TRAIÇÃO, s. Segundo moderna e eloqüente concepção, traição é traição.

VINGANÇA, s. Ver JUSTIÇA.

ZICA, s. Pereba, pururuca. Enfim, uma palavra qualquer com "Z" pra fechar bonito.










terça-feira, 31 de maio de 2011

ÂNGELO NA COVA DOS LEÕES




A Bíblia não menciona seu nome. Mas saibam todos que seu nome era Ângelo. A Babilônia jamais havia visto uma criança tão bela. Seus cabelos ondulados e seu semblante puro ofuscavam o brilho dos anjos mais divinais. Seu pai, de nome Ajevni, era um renomado príncipe do rei Dario, o Medo. Como vivia ocupado, Ajevni passava pouco tempo com o filho. A mãe de Ângelo, Tereza, era quem o criava, sempre com muito amor e dedicação. Ângelo era um menino sonhador. Ele desejava melhorar o mundo, acabando com a injustiça, as guerras e o mal.  
Um dia, enquanto brincava de correr pela casa, Ângelo foi surpreendido por uma terrível cena: quatro soldados do Rei Dario invadiram sua casa e disseram que, por causa de Ajevni, toda a família dele deveria ser lançada na cova dos leões. Mediante violência pai, mãe e filho foram levados como se não possuíssem valor algum.
No caminho, Ângelo foi ouvindo a conversa dos soldados. Ele pôde compreender que um inocente havia sido colocado na cova dos leões, sendo certo que seu pai, Ajevni, era um dos culpados dessa injustiça (felizmente, Deus havia salvado o inocente tapando a boca de cada leão da cova). O menino com apenas uma década de vida não era capaz de entender essa justiça que punia filho e mãe como se culpados fossem.
Chegando no palácio do rei Dario, Ângelo viu que havia outras famílias ali. As pessoas estavam muito assustadas e pediam misericórdia ao rei. Dentre elas havia uma criança que chorava copiosamente. Ângelo percebeu que se tratava de seu amigo Nabuco, um filho de príncipe, assim como ele.
O rei não se sensibilizou e ordenou aos soldados que levassem as famílias para serem lançadas na cova dos leões. As famílias, em prantos, entraram na cova e despedidas emocionadas começaram a se dar ali. Foi trazida uma pedra e foi posta sobre a boca da cova. Após, o rei dirigiu-se ao seu palácio. Ali ocorreu um banquete animado com muita música. Ao final, o rei dormiu tranquilamente com sono profundo. E aconteceu que começou a sonhar. Sonhou que conversava com Deus e este lhe dizia: “És justo, rei Dario! És justo como Eu sou!”.
Enquanto o rei sonhava, os prisioneiros na cova dos leões viviam um pesadelo. Eles ainda não haviam chegado ao fundo da cova quando os leões começaram a se apoderar deles. Com lágrimas nos olhos, Ângelo viu seu amigo Nabuco ser morto por um leão faminto. A fera pulou em direção ao menino, derrubando ele no chão. Nabuco foi facilmente imobilizado pelo pesado animal. Sem dó, o leão começou a mordê-lo. Os gritos de dor e desespero daquela criança fariam chorar até os homens mais frios desse mundo. Quando Ângelo se virou, uma cena ainda pior o aguardava: a morte de seus pais, na sua frente, de forma brutal. O menino quase desmaiou ao contemplar aquele horror. Quando os pais morreram, os leões começaram a brigar entre si disputando a carne fresca do casal. Naquele momento quase todos que entraram na cova já estavam mortos. Foi quando Ângelo pensou: “Por que Deus salvou o último prisioneiro que aqui se encontrava e permitiu que pessoas tão inocentes quanto ele fossem destroçadas pelos leões?”. Ângelo não obteve resposta. Após esse pensamento, o menino puro e inocente foi atacado por um feroz leão. Todos os seus ossos foram completamente esmigalhados.
Pela manhã o rei se levantou e foi sem pressa à cova dos leões. E, chegando-se à cova, viu que todos haviam sido mortos pelos leões, porquanto Deus não havia tapado a boca das feras. E o rei muito se alegrou disso.
Esta é uma história real que aconteceu numa cova real. Muitas pessoas em viagem ao atual Iraque costumam visitar a famosa cova dos leões, palco da tragédia de Ângelo. Nela ainda podemos ler na parede a seguinte frase escrita na época pelo próprio rei Dario: A PAZ VOS SEJA MULTIPLICADA.

                                                 
                                               FIM

segunda-feira, 23 de maio de 2011

PUNHAL 2 (HARAKIRI)




ADEUS
DIGO ADEUS
Ó COMPANHEIROS MEUS
A MINHA DESPEDIDA
SE DÁ POR POESIA
COMO MANDA O BUSHIDO
 CÓDIGO BEM ANTIGO
POIS SAMURAI EU SOU
E DESONRADO ESTOU
A PEDRA EU ATIREI
PORÉM TAMBÉM PEQUEI
QUANDO A FLOR DO JARDIM
DO PRÓXIMO EU COLHI
NÃO PUDE VISLUMBRAR
A TRAVE EM MEU OLHAR
PORÉM FUI BEM LIGEIRO
EM APONTAR O ARGUEIRO
NO OLHO DE MEU IRMÃO
MORTO POR MINHA MÃO
O KAISHAKU DISPENSO
QUERO UM MORRER BEM LENTO
SÓ ASSIM EU PODEREI
CUMPRIR A MINHA LEI
TERMINO SEM DEMORA
POIS É CHEGADA A HORA
VESTIDO COM MANTO BRANCO HUMILDEMENTE ME AJOELHO
MEU SEMBLANTE CORAJOSO POSSO VER NAQUELE ESPELHO
COM O MESMO PUNHAL SUJO FAÇO EM MIM UM CORTE EM CRUZ
PARA ME PURIFICAR EU SOFRO AS DORES DE JESUS
HARAKIRI SEPPUKU
HARAKIRI SEPULCRO
HARAKIRI SÊ PURO
SÊ PURO
PURO


segunda-feira, 16 de maio de 2011

O JULGAMENTO DE ADÃO, EVA E SERPENTE

Em geral, as religiões são contrárias ao saber, e isso ocorre porque elas sabem que o saber é contrário à religião. Tudo isso está de acordo com a Bíblia, pois é notório o que sucedeu com o primeiro casal de filósofos da humanidade na sua busca pelo conhecimento. Adão e Eva são processados pelo crime de ingestão de fruto proibido (fruto do conhecimento do bem e do mal para alguns; maçã para outros). A serpente é processada pelo crime de instigação à ingestão de fruto proibido. O processo é inquisitorial, porquanto Deus, como se não bastasse ser o legislador, acumula as funções de acusador e juiz. Neste, que foi o primeiro julgamento da história da humanidade, Adão e Eva agem em causa própria (Deus não havia criado até aquele momento nenhum advogado). Em sua defesa, Adão delata Eva e imputa somente a ela a responsabilidade penal. Disse ele:

“A mulher que me deste por companheira me deu da árvore e comi”.

Eva, por sua vez, sustentou o erro de tipo, culpando exclusivamente a serpente:

“A serpente me enganou, e eu comi.”

Percebam como o fruto do conhecimento fez efeito instantâneo, pois o casal soube criar excelentes teses defensivas, como se criminalistas experientes fossem. Todavia, infelizmente elas não foram capazes de convencer o implacável juiz. Transcrevo agora trechos da sentença condenatória lavrada pelo Excelentíssimo Juiz Deus e publicada em Gênesis:

Serpente: “Porquanto fizeste isso, maldita serás mais que toda besta, e mais que todos os animais do campo: sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente: esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

Eva: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”

Adão: “Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela: maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado: porquanto és pó, e em pó te tornarás.”

Ver um animal sendo processado e condenado pela prática de um crime é algo que me faz rir. Porém, mais engraçado é constatar que essa era uma prática comum na Idade Média. Nessa época, os porcos eram os bichos que mais sentavam no banco dos réus. Além deles, bois, cachorros, ratos, lobos, cobras e até abelhas já sofreram processos criminais. Tudo indica que a Bíblia é a principal influência desse entendimento bisonho, pois este livro considera que os animais são seres moralmente responsáveis por seus atos, senão vejamos em Êxodo 21:28: “E se algum boi escornear homem ou mulher, que morra, o boi será apedrejado certamente, e a sua carne se não comerá; mas o dono do boi será absolvido”.
Volvendo ao caso em tela, os três sofreram penas cruéis, que ferem a dignidade da pessoa humana e a dignidade da pessoa animal. Entretanto, como se não bastasse, o casal foi punido ainda com a pena de desterro: foram expulsos do jardim do Éden. E eles realmente sofreram tudo isso, pois a sentença era irrecorrível. Se houvesse a possibilidade de interpor recursos, um bom argumento para a absolvição dos réus seria alegar que essas penas não estavam previstas em lugar algum. Porém, pensando melhor, dificilmente esse argumento prosperaria, já que a regra “não há pena sem prévia cominação legal” não é aplicada por Deus e, sinceramente, não vejo ilicitude alguma nisso. Afinal, Deus pode fazer tudo. Em outras palavras, Deus é onipotente! Como podem ver, o primeiro casal de filósofos sofreu e muito por buscar o conhecimento. Que sirva de lição!